Domingo, 29 Março 2026 21:47

    A Laje e o céu

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    A laje, nas favelas do Rio, de São Paulo e de tantas outras cidades, não é apenas tijolos e concreto. É uma promessa e herança antecipada. É o andar que ainda não existe, mas já foi vendido, dividido, prometido, não em contrato, mas na urgência.

    O pai levanta a casa térrea com o que pode. Bloco, cimento, esforço e uma fé silenciosa de que aquilo vai aguentar. Sempre aguenta, até o dia em que não aguenta mais. A laje vem depois, sem cálculo, guiada pelo olhar e pela repetição. “Sempre foi assim”, dizem.

    E, assim, a favela cresce: laje sobre laje, casa sobre casa, cada pavimento sustentando não só peso, mas expectativa.

    Curiosamente, lá vende-se a laje como se vende um terreno suspenso. Quem compra, sobe. E ao subir, precisa construir outra, porque alguém acima já espera. É uma cadeia vertical de esperança e risco. O poder público quando observa, observa de longe. E quando aparece, é só depois do desabamento que vira notícia.

    O concreto tem memória. E o solo também.

    Encostas sem contenção, drenagem improvisada, águas que infiltram e escavam. Quando chove, a cidade revela o que foi escondido. A terra cede, os sinais aparecem antes, portas que não fecham, pisos que deformam, mas ninguém para. Porque parar é não construir. E não construir é não caber e não faturar.

    Lembro-me da faculdade, estagiário no programa Favela Bairro. Subíamos vielas com trena na mão, tentando desenhar o que nunca foi pensado para ser desenhado. Ali entendi que a precariedade não é só material, é conceitual.

    Vi o que não entra em projeto ou obra: confrontos. Traficantes descendo armados, policiais subindo no caveirão, nós, no meio. Fomos puxados para dentro por uma senhora, que nos ofereceu café enquanto nos escondíamos debaixo da mesa, esperando os tiros cessarem. Para ela, rotina; para nós, pânico.

    Logo, tudo lá fora voltou ao normal. O pedreiro retomou o serviço. A água continuou escorrendo onde não devia. A laje seguiu subindo. Percebi nesse dia que, para quem vive ali, a adaptação é sobrevivência.

    A laje é, talvez, o elemento mais honesto da arquitetura brasileira; ela revela nossa capacidade de construir e também o risco de fazê-lo sem apoio. Entre o céu e o chão, ela sustenta mais que paredes, sustenta a vida, mas só até onde o concreto permitir.

    Lido 144 vezes Última modificação em Domingo, 29 Março 2026 21:55
    Eduardo Marques

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