InícioCrônica do AroldoA morte do pistoleiro

A morte do pistoleiro

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Paradoxalmente, a modernidade nos aproxima da antiguidade.

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Com as facilidades oferecidas pela internet, usuários de redes sociais de relacionamento estão sempre buscando coisas que os ligue ao passado. Buscam-se amigos dos primeiros anos de escola, buscam-se ex-namorados, buscam-se parentes com quem não se fala há muitos anos. Fotografias, músicas, filmes e livros antigos também ocupam muitos megabites nessa inconsciente volta aos tempos de outrora.

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Há poucos dias, um vídeo com Bob Nelson, famoso cantor de músicas do faroeste americano, que fez sucesso lá pelos anos 1950 e 1960, estava sendo divulgado em um dos grupos que frequento. Ouvindo o tiroleite, tiroleite, tiroleite do falso paladino e lembrei-me de Edmilson Lone.

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Para sobreviver, ele pintava paredes e abria letreiros no incipiente comércio de Boa Vista. Nas noites de quinta-feira, inspirado em Kit Carson, o correio das planícies, ele vestia calça Coringa, camisa quadriculada cheia de bolsos, fricotes e franjas e, no Programa Jaber Xaud, largava o pau a cantar os tiroleites em clara imitação do estilo Bob Nelson.

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Na cidade, ele era conhecido por Baiacu. Não me lembro de seu nome verdadeiro.

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Edmilson Lone, o alter ego, aos poucos foi tomando conta da mente de Baiacu. O pintor, de repente, passou a sair fantasiado de caubói para todos os lugares.

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Mesmo nos degraus de escadas rudimentares, nosso herói empunhava pincéis e broxas como se fossem Smith & Wessons ou Colts. Baiacu acreditava ter a missão de expulsar os malfeitores da pacata cidade boa-vistense.

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Uma noite, nosso xerife entrou na sinuca do Vicentão, levantou a aba do chapéu e, depois de correr a vista por todo o recinto, encarou João-bate-pronto e mandou-o retirar-se do meio dos homens de bem.
Pessoa de pouca conversa, nervoso, João entornou o copo de pinga numa só talagada e, ato contínuo, desceu a porrada em Edmilson Lone.

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Dias depois, antes de sair do hospital, Baiacu pediu para a mãe atear fogo nos acessórios e vestes de caubói e dar fim a todos os discos de Bob Nelson.

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Naquela data, morreu nosso herói do lavrado. Morreu o nosso pistoleiro

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Aroldo Pinheiro
Aroldo Pinheiro
Aroldo Pinheiro é jornalista. Diretor Geral, Gerente Comercial e Editor-chefe do Jornal Roraima Agora. MTB 397/RR.
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