HomeCrônica do AroldoVisitas íntimas

Visitas íntimas

Segunda-feira, cedinho, os policiais invadiam as alas, acordavam os presos e os encaminhavam para o pátio. Ali, eram obrigados a tirar a roupa e, de cócoras, esperar pela meticulosa revista que estava sendo feita nas celas.n

Aos poucos, sobre longo balcão de madeira, as mais inusitadas peças apreendidas eram amontoadas: tesouras, terçados, estiletes, cutelos, telefones celulares de última geração, garrafas de pinga, papelotes contendo drogas ilícitas… Até duas foices e um machado foram encontrados debaixo de uma cama.
n
De repente, cabo Atanásio surgiu conduzindo, dois galos que tentavam escapar do forte cheiro exalado pelos sovacos do policial. Galos mesmo. Galos de verdade. Desses que dizem cu-cu-ru-cu. Duas aves fortes bonitas, esbeltas, multicoloridas. Pelo porte, pescoços pelados e esporões afiados, qualquer um, mesmo que nunca tivesse pisado numa rinha, sabia que ali estavam dois galos de briga.
n
Popó e Éder Jofre, estes eram os nomes daqueles dois lutadores que preenchiam o tempo e valorizavam as apostas dos presidiários em seus poucos momentos de lazer.
n
Carinhoso, condenado a 28 anos por ter matado a mulher com 59 facadas, apelou:
n
– Doutor, por favor, não leve esses galos… Eles são de estimação.
n
O representante do Ministério Público interpelou-o:
n
– Por que não? O que esses galos fazem aqui dentro?
n
– Eles são pra reprodução, doutor… – respondeu o presidiário.
n
– Reprodução, né? E cadê as galinhas?
n
– Elas só vêm às quartas e aos domingos, doutor… Dias de visita… As frangotas só vêm para visitas íntimas…
n
Claro que Popó e Éder Jofre, agora, estão atrás das telas de outro galinheiro.
n
n]]>

RELATED ARTICLES

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

- Advertisment -
Google search engine

Most Popular

Recent Comments