InícioCrônica do AroldoOficial da reserva

Oficial da reserva

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Um amigo me contou essa história que, diz ele, se passou em cidadezinha do exterior. Não sei se na Bolívia ou na Croácia.

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Filho de barão fabricado no fim do último reinado, após a morte do pai, vaqueiro assumiu o comando das terras e dos capangas. Com algumas dezenas de homens prontos para cumprir ordens, Ophélio – assim mesmo, com pê e agá – concedeu-se o título de coronel, a exemplo de oficiais de barranco que ele conhecera durante a infância.

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O nascimento do primeiro herdeiro do coronel rendeu festa de três dias. Para garantir hierarquia na família, o oficial, que nunca serviu às armas oficiais de lugar nenhum, deu ao primogênito o pomposo título de major. Major Othávio. Seguindo a tradição, um dígrafo: tê e agá.

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O surgimento do segundo menino não mereceu menos festas. Apesar de protestos da esposa – que argumentava contra a aplicação de coisas de armas no seio familiar, coronel Ophélio registrou-o também com um tê agá e deu-lhe patente de capitão. Capitão Osthógio.,

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Osthógio já atingira maioridade, quando a mãe engravidou novamente. Coronel Ophélio, do alto de seus 76 anos, mostrava a barriga da patroa como se um troféu fosse: prova de que era macho e continuava dando no couro.

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Na casa, torcia-se para que este terceiro e último bebê a ser parido fosse uma menininha. Vendo a enorme barriga pontiaguda de Othília, as comadres previam que o sonho da mulher do coronel se realizaria. O quarto que abrigaria o novo rebento foi pintado de cor-de-rosa; presentinhos e coisinhas do enxoval seguiam o mesmo matiz.

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Contrariando previsões e desejos, nasceu um menino. Alegria do coronel e tristeza da patroa. Para essa criança, o velho fazendeiro fez mais festas do que nos surgimentos dos dois primeiros filhos e, ao caçula, em homenagem a si mesmo, deu nome de Ophélio Júnior. No tratamento do dia a dia, o título de tenente.

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O menino crescia com comportamento meio estranho. Não sei se carinhos em demasia, não sei se influenciado pelo excesso de cores-de-rosa em seus aposentos, não sei se paparicos das amas de leite, fato é que, com o passar do tempo, tenente Ophélio Júnior mostrava delicadeza e trejeitos que não condiziam com a virilidade requerida por sua patente. Aquilo mexia com o orgulho e a vaidade do velho coronel.

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Na festa de dez anos do tenente, Othília, atendendo súplicas da criança, decorou o salão da residência com muitas plumas e paetês. Depois do “Parabéns a você”, Ophelinho desapareceu. Convidados estranharam a longa ausência do menino.

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E, de repente, as luzes da casa se apagaram, “I am what I am”, de Gloria Gaynor, ecoou das caixas de som e, quando a iluminação retornou, na porta do quarto, vestindo colada malha azul turquesa, sapatilhas da mesma cor, cílios postiços com pesada maquiagem, desenvolvendo passos de dança nunca vistos na vizinhança, surgiu o oficial mais jovem do exército daquela residência.

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Desgostoso, coronel Ophélio saiu de cena. Depois que os convidados deixaram a festa, o fazendeiro reuniu familiares, criadagem, capangas e determinou:

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– Já vimos que Ophelinho não nasceu para as armas; para não ficar feio e calar essas línguas maledicentes, decidi passá-lo para a reserva.

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Na cidade, Ophélio Júnior passou a ser conhecido pelo simples apelido de “Juninho R2”. Hoje, a casa erguida pelo coronel recebe clientela GLBT, WHS e YS2 para assistir shows de gosto duvidoso protagonizados pelo ex-militar.

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Aroldo Pinheiro
Aroldo Pinheiro
Aroldo Pinheiro é jornalista. Diretor Geral, Gerente Comercial e Editor-chefe do Jornal Roraima Agora. MTB 397/RR.
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