InícioCotidianoO show não pode parar

O show não pode parar

O Circo do Seu Léo diverte e inspira poesia

O chão de terra ainda é o lugar mais seguro para fincar seu sonho de menino. É nele que o cearense Leonildo de Assis Silva, 58 anos – mais de quarenta deles vividos dentro de um picadeiro – enterra varas de ferro que vão sustentar a lona para o próximo espetáculo.

A Praça Germano Augusto Sampaio, no bairro Pintolândia, periferia de Boa Vista, é onde o “Circo do Seu Léo” ficará durante este mês de outubro.

Antes de o espetáculo começar, muito trabalho. Enquanto monta a estrutura, com a ajuda de quatro braçais, Léo Malabarista – assim ficou conhecido Leonildo no mundo circense – mostra à reportagem do Roraima Agora a luta solitária para manter o circo vivo.

Tudo o que conseguiu nessas quatro décadas dedicadas à arte circense está diante dele. A lona de 18 por 24 metros foi adquirida há quatro anos, por meio do Prêmio Funarte Carequinha de Estímulo ao Circo – Fundação Nacional de Artes. “Gravei um vídeo mostrando a lona antiga cheia de buracos, nossa dificuldade para trabalhar.

A primeira que tivemos, foi preciso costurar a mão de tão furada que estava. Eu e minha mulher passamos mais de um mês fazendo remendos”, recorda o palhaço. A dificuldade para percorrer com o “Circo do Seu Léo” estado afora deixou a família circense quatro meses sem trabalhar.

“Quem me mantém é o público”, desabafa o artista. “Se vão a Xuxa e o Léo Malabarista pedir apoio a um empresário, quem ele vai ajudar?”, indaga ele fazendo críticas ao poder público e setor privado pela falta de incentivo à cultura popular.

Para manter o modesto espetáculo, ingressos são vendidos ao preço de R$ 3 – para crianças – e R$ 5 para adultos. Do dinheiro, ele paga as apresentações dos filhos e ainda tem que sobrar gorjetas para os netos: os palhaços Batatinha, de 10 anos; e Pirulito, 4.

A mulher, artista plástica Carmézia Emiliano, é quem cuida do figurino, costura as roupas dos integrantes, prepara maçãs do amor, faz pipoca e fica na bilheteria. “Nossa família vive da arte”, diz Léo.

A casa do artista

Colchão velho – estendido sobre um pedaço de madeira -, o resto de um mosquiteiro sobre cama improvisada, uma almofada em forma de peixe, caixote usado para vender pipocas, gaiola

de passarinhos e outros cacarecos ocupam um quadrado fechado com grades de ferro. Essa será a casa do palhaço e sua companheira Lucy, a cachorra poodle, enquanto o circo estiver montado

na Praça Germano Augusto Sampaio. “Eu já fui assaltado”, conta apontando um dedo para o pescoço. “Levei uma facada e levaram todo o meu dinheiro, R$ 200, que eu reservava pra

pagar uma conta”, lamenta- se.

Mesmo com o trauma da violência, Leonildo arrisca dormir no local para preservar o único

patrimônio de sua vida.

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