O País se prepara para escolher seus representantes. No canteiro de obras, a disputa é antiga. De um lado, o candidato Concreto Armado, veterano, popular e conhecido por ocupar quase todos os bairros. Do outro, o candidato Aço, representante das estruturas metálicas, discurso moderno, postura esbelta e a promessa de entregar tudo antes do prazo. O arquiteto assume a mediação. Atrás dos púlpitos, dois sistemas construtivos prontos para defender o próprio peso.
PRIMEIRO BLOCO: PERGUNTAS DO MEDIADOR
– Candidato Concreto, o senhor é acusado de ser lento e de deixar sujeira por onde passa.
– Isso é campanha difamatória. Eu preciso de formas, escoramentos, armaduras e cura. Não chame de atraso o que é processo. Além disso, encontro mão de obra em quase todo lugar.
O metálico sorr: – Processo? Enquanto ele espera a cura, eu já estou montado.
– Candidato Aço – interrompe o arquiteto – seu adversário afirma que o senhor custa caro e depende demais da indústria.
– Dependo de projeto bem resolvido, fabricação precisa e montagem qualificada. O cronograma melhora quando ninguém improvisa na obra. Mas não prometo milagre. Frete, proteção contra corrosão, ligações e segurança contra incêndio entram na conta.
O concreto aproveita: – Viu? O discurso é leve, mas a fatura nem sempre.
– E a sua, quando se somam formas, desperdício, prazos e retrabalho? – Devolve o aço.
SEGUNDO BLOCO: PERGUNTAS ENTRE CANDIDATOS
A Estrutura Metálica toma a palavra: = “Concreto, como pretende vencer grandes vãos sem multiplicar pilares e sacrificar a liberdade da arquitetura?
– Com dimensionamento e soluções adequadas. Posso vencer vãos importantes, mas admito que nem sempre serei a opção mais leve ou econômica. Minha pergunta é outra: você resiste ao fogo sem proteção específica?
– Depende do projeto e da resistência exigida” -, responde o aço. – Em determinadas situações, preciso de revestimento ou outro sistema de proteção. E você? Vai continuar escondendo seus erros atrás do reboco?
– Se o engenheiro erra, nenhum de nós salva a obra. Você também não se corrige com uma demão de tinta.
O mediador pede ordem. A plateia, formada por empreiteiros, calculistas e clientes que queriam apenas saber o preço do metro quadrado, começa a se impacientar.
BLOCO FINAL: CONSIDERAÇÕES
– Última pergunta -, anuncia o arquiteto: – Qual dos dois é o melhor?
Ambos se inclinam para o microfone. Pela primeira vez na noite, hesitam.
É aí que a disputa perde o espetáculo e encontra a arquitetura. Não se escolhe estrutura por torcida, costume ou propaganda. Escolhe-se segundo o terreno, o vão, o orçamento, a mão de obra disponível, a logística e o prazo. Às vezes, a solução mais inteligente está na combinação dos dois.
O mediador encerra o debate. Concreto e Aço se cumprimentam com alguma rigidez. A eleição fica para o projeto executivo.
Porque, em obra, o candidato que promete resolver tudo sozinho costuma entregar a conta para o eleitor.



