InícioCrônica do AroldoMocinho ou bandido?

Mocinho ou bandido?

n

Há vinte anos, fui a Brasília em férias com uns amigos. Primeira vez ali. Fomos de ônibus, desembarcando na rodoviária do Plano Piloto. Logo, vimos a Esplanada dos Ministérios e o Congresso. Foi amor à primeira vista, registro para sempre na memória. Dali em diante, fomos a todos os locais indicados nos guias turísticos.

n

Foi a primeira que aluguei um automóvel. Para nossa surpresa, nem saiu caro. Na época, usava-se muito as travas de segurança, que prendiam a direção na embreagem ou freio e, depois, eram trancadas. E neste caso da minha primeira locação, o carro tinha uma destas travas.

n

A locadora do veículo nem falou sobre seguro, não se usava isso. O seguro dela foi me atemorizar, dizendo que lá furtavam-se muitos carros. Então, onde eu parava, colocava a trava.

n

Fomos a uma casa noturna, próxima do Banco Central. Muito cheio o lugar, tive que estacionar bem distante. Ao final, lá pelas quatro da manhã, fui sozinho buscar o carro para voltar e pegar o pessoal.

n

Entrei no veículo e fui soltar a trava de segurança. A Lei de Murphy entrou em ação: mexi a chave de todo jeito e nada de abrir. Naquele tempo não havia celular para chamar por ajuda nestas horas.

n

Não é que o pior acontece? Uma pessoa se aproxima! Um homem, de uns vinte anos, nos meus estereótipos aparentava ser um ladrão. Chegou até a porta e perguntou o que aconteceu, eu disse que a trava “travou”! Com um linguajar inconfundível das páginas policiais, disse-me: “Você me ajuda que eu te ajudo”.

n

Imediatamente aceitei. Levantei-me e saí do carro. Ele sentou e movimentou as mãos na direção da fechadura da trava. Quando fui perguntar o que ele faria, a trava já estava solta nas mãos dele! Ele gastou menos que dez segundos para abrir a geringonça. E sem qualquer ferramenta! Levantou-se e me entregou a trava aberta, sob meu olhar de espanto e satisfação. Dei a ele um trocado, acho que foi justo o valor, ele saiu feliz.

n

Fui-me embora pegar o restante do povo. Preocupados e morrendo de raiva de tanto esperar, a turma já pensava em chamar a polícia! Quanto contei o ocorrido, senti que não botaram muita fé na minha história.

n

Efetivamente fui-me embora feliz, pois saí ileso de corpo e bolso daquela situação potencialmente problemática. E qual seria a “moral desta história”? Facilmente selecionei três frases, mas até hoje não defini qual especificamente é a ideal: “Deus realmente é onipresente”; ou “A solidariedade aparece de onde menos esperamos”; ou, ainda, “Ninguém melhor que o rato para conhecer os segredos de segurança do gato”! 

n
n]]>

Aroldo Pinheiro
Aroldo Pinheiro
Aroldo Pinheiro é jornalista. Diretor Geral, Gerente Comercial e Editor-chefe do Jornal Roraima Agora. MTB 397/RR.
ARTIGOS RELACIONADOS
- Advertisment -
Google search engine

MAIS RECENTES

- Advertisment -
Google search engine