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Quarta, 14 Janeiro 2026 02:13

A Divisa da honra

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Havia, naquela rua comercial, uma divisa. Não uma divisa qualquer, era a linha que separa “o meu” e “o seu”, esta que sempre foi a mais dramática das invenções humanas. No mapa, é uma linha, mas na alma, é uma faca.

De um lado, o comerciante A, do outro, o comerciante B. Entre eles, 10 centímetros de discórdia. Essa era a distância entre o gesto civilizado e o escândalo. Para um poeta, dez centímetros não dão um verso, mas para esses dois comerciantes, deu-se em uma guerra.

A história começou como todas as tragédias modernas. Um comentário inocente, desses que parecem um fiapo e viram corda. 

- Esse muro tá torto pro meu lado…

O outro ouviu como se tivesse recebido uma bofetada.

- Pro seu lado? Tá dizendo que eu invadi?

No começo, uma conversa, um acerto, um café, um “vamos medir e resolver”, seria uma solução bem mais barata. Mas, aí entra o detalhe decisivo, os dois não queriam resolver, queriam lutar. Vencer!
Assim, contrataram laudos, sendo que o primeiro provocou o segundo e o segundo exigiu um terceiro. A rua assistia como quem acompanha novela: “invadiu?”, “não invadiu?”, “sempre foi assim…”.

A certa altura, os comerciantes já não brigavam pelo espaço e sim pela narrativa. Quem invadiu quem? Quem começou? Quem “sempre foi assim”? A verdade deixou de ser medida e virou biografia.
A briga foi transferida para a Justiça, com petições, prazos, recursos em uma procissão burocrática. O muro ganhou vida no papel mais do que no mundo, enquanto os dois pagavam honorários, perícias, diligências com fervor, como se o dinheiro saísse do orgulho, não do caixa.

Anos depois, veio a decisão. O tribunal, solene, declarou o que já era evidente desde a primeira trena, gerando o anticlímax. O vencedor não comemorou e o perdedor não aprendeu. O dinheiro gasto por ambos superou, com folga indecente, qualquer acordo que poderiam ter feito no início, sendo que com aquele mesmo valor, dava para levantar vários muros, mais altos, mais bonitos e, se houvesse vocação para a grandeza, ainda sobrava para um churrasco de reconciliação.

E é aqui que a crônica deixa de ser sobre um muro e vira sobre nós. Todo mundo tem um “muro de dez centímetros” escondido por aí. A diferença é que alguns ainda resolvem na conversa, enquanto outros preferem a glória de vencer, mesmo que seja a vitória mais cara e mais vazia da rua.

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Eduardo Marques

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