Adoro apelidos. Doutor Elesbão era mestre em apelidar. E em colocar cognomes.
Em Boa Vista, um descendente de franceses, com sobrenome Mirabeaux (pronuncia-se mais ou menos mirabeô), virou Seu Miraboa; um comerciante guianense, com sobrenome Persaud, virou Seu
Passado. De Lethem, um comerciante descendente de chineses, cujo nome era Nick Fook, virou Nega-fogo.
Na pacata capital roraimense dos anos 1960, grande parte dos moradores da cidadezinha, com não mais do que 30 mil habitantes, se conhecia entre si.
Pelo que me consta, na cidade só existia um Mauro. Este era irmão de Aquilino Duarte, que foi governador do território.
Seu Mauro era um homem grandão, forte, cabelos grisalhos sempre arrumados, bonito como Lee Marvin, antigo astro do cinema americano.
Meu pai, Zepinheiro, instalou o primeiro autopeças da cidadezinha com poucos veículos automotores e convidou um bom mecânico conhecido seu – Mauro Leite de Oliveira – para montar uma casa de reparos. Convite aceito, nasceu, assim, a Oficina São Francisco.
O Mauro Oliveira, nordestino, bem moreno, quase preto, não tinha a beleza e o porte elegante do pecuarista Mauro Duarte. Como duas pessoas com nomes iguais poderiam causar problema de identificação, a cidade decidiu: o Mauro mecânico recebeu o apelido de Mauro-mais-feio.