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    Sexta, 09 Junho 2023 07:48

    Histórias do Copão da Amazônia

    Intervalo do jogo Juventus, do Acre, contra o Ríver, de Roraima. O repórter da rádio acreana entrevista o zagueiro roraimense Transa. Ele pergunta: “Jogo duro, hein. Está cansado?” Sem fôlego, o craque balança a mão como se dissesse “mais ou menos”. O repórter, apanhado de surpresa, emenda: ”Alô, Transa, aqui é rádio, gesto não vale, precisa falar”.

    Eram tempos do Copão da Amazônia, competição criada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) destinada aos clubes do Acre, Amapá, Rondônia e Roraima, então com futebol amador. O certame era disputado em duas chaves, com quatro clubes cada uma, em sedes diferentes. Os campeões das chaves jogavam as finais em duas partidas, uma em casa e outra na casa do adversário.

    As histórias vividas por atletas, dirigentes e jornalistas faziam a alegria das delegações. Waldemar Caldas, o Wado, bom zagueiro do Baré, vira e mexe era expulso de campo. Uma das vezes foi no Copão, em Porto Velho. A comunicação era feita através de telefones fixos (final da década de 1980). Refugiado no hotel onde o presidente do clube, Zuza, estava hospedado (os jogadores ficavam em alojamento coletivo), ele falou com a esposa e com a filha. Ao terminar a conversa, comenta, triste: “Até a minha filha reclamou: ’Expulso de novo, papai?’”

    Em 1982, o São Raimundo foi ao Amapá. Na véspera da estreia, contra o poderoso Juventus, o treinador, o então capitão Derly Borges, da Polícia Militar de Roraima, toma um susto: o craque do time, Renier, ainda estava fora do hotel às 23h.

    Borges saiu em busca do atleta, na companhia de Rainor, irmão de Renier. A duas quadras do hotel, eles veem pelada de futebol de salão na quadra pública, onde a galera delirava com as jogadas de efeito do jogador. Ameaçado de desligamento da delegação, Renier prometeu atuação de gala no dia seguinte. Dito e feito. Os acreanos pagaram o pato: São Raimundo 3 a 0.

    Publicado em Autores convidados
    Terça, 07 Março 2023 19:54

    A chapa

    O cenário era sempre o mesmo. A executiva e empresária Maria José Alves, de Manaus, recebia pessoas em seu local de trabalho com a mesma simpatia. A maioria, formada de empresários em busca de apoio aos seus projetos. Mas o pequeno grupo de pedintes batia o ponto com a mesma regularidade dos funcionários da empresa.

    Havia quem tivesse dia e horário certos. Aquela senhorinha aparecia uma vez por mês, sempre na primeira segunda-feira. Vinha com receita médica na mão em busca de ajuda para pagar os exames prescritos pelo médico. O documento era verdadeiro. Ela precisava dos exames. O problema era quando a “colega” pedia auxílio com a mesma receita. Apanhada no erro, ela argumentava ser outro, muito parecido.

    A Zezé nem esquentava. Sabia o quanto a senhorinha necessitava do dinheiro. Conhecia o caso. Contribuía com a “colega”, desejava melhoras e a aguardava no mês seguinte, com a pontualidade de relógio suíço, como se dizia antigamente.

    Certo dia, apareceu microempresária cujo empreendimento havia sido apoiado há tempos. A lanchonete parecia roda gigante: hora subia, como se pegasse embalo definitivo, hora caía a níveis quase insustentáveis. Dava agonia ver a luta da jovem nesse vai e vem insano.

    A última visita causou espanto à Zezé. A lanchonete ia bem das finanças. Mas lá estava a jovem com pedido inusitado. Precisava de dinheiro para comprar uma chapa nova. Nossa amiga estranhou, pois os equipamentos eram seminovos, ainda em condições de enfrentar bom tempo de uso.

    Acostumada com a falta de experiência dos empresários de primeira viagem, questionou o pedido. Quem sabe dava para consertar a sanduicheira? Foi quando a jovem sorriu um sorriso de poucos dentes à frente e esclareceu o caso:

    - A senhora entendeu errado. A chapa da lanchonete está boa. Eu preciso de dinheiro para comprar uma chapa nova para a boca. Perdi a antiga. Rir com esse buraco fica muito feio...

    Publicado em Autores convidados
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