By Aroldo Pinheiro on Domingo, 11 Fevereiro 2018
Category: Crônica do Aroldo

O desconvidado

Era como uma confraria. Todos se conheciam há muito tempo e tinham muito em comum. Oito casais de classe média que conservavam ótima convivência. Fins de semana, piqueniques, acampamentos, festas, barzinhos, boates, algumas viagens... Tudo eles faziam em conjunto.

Na cidade, invejosos teciam mil histórias a respeito do grupo. Normal que fosse assim, como assim era na fábula da raposa e as uvas. Os comentários inventados com muita maldade não abalavam aquele relacionamento. Às vezes, até se divertiam sabendo que o grupo ocupava a crista da fofocagem cultivada pelos maliciosos.

Surgiam histórias do tipo: "Ali rola cocaína!"; "Eles sempre se reúnem para um troca-troca"; "Ali, ninguém é de ninguém" "O caseiro do Alberto disse que a sala está sempre suja de pó branco depois das reuniões." Eles não estavam nem aí. Levavam suas vidas saudável e prazerosamente, aproveitando, comendo e bebendo do bom e do melhor... E se divertindo muuuuiiito.

No carnaval, como sempre, reservaram duas mesas para as três noites de folia no melhor e mais tradicional clube da cidade. Escolheram fantasias, programaram onde seriam os "esquentas" e os "caldões da ressaca", estocaram uísque, cerveja, Engov, Sonrisal e Epocler para o período momesco e caíram na farra.

Na última noite, terça-feira, lá estavam eles ora brincando nas mesas, ora dando voltas no salão, ora visitando mesas de amigos, ora dançando no meio da banda... Normal. A festa era só animação. Já tinha tocado o Zé Pereira, Mulata Bossa-nova, A Jardineira, Lambretinha, Máscara Negra, Bandeira Branca, Bibelô Chinês, Mamãe Eu Quero, alguns sambas-enredo...

O dia amanhecendo e o carnaval comendo no centro. João Fernando, inconveniente, mau caráter, invejoso, fofoqueiro, casado com Marília, mulher, feia e mal enjambrada, encontrava-se no clube e, desde o início da festa, forçava uma situação para aproximar-se daquele animado grupo de amigos. Eles, conhecedores da fama e inconveniências do casal despeitado, não davam abertura.

Lá pelas seis da manhã, já ao som de Cidade Maravilhosa - tradicionalmente última música do carnaval, João chegou-se a um dos integrantes daquela turma e, alto, ao seu ouvido, perguntou:

- Escuta, a que horas vocês vão começar o troca-troca?

Pedro, muito espirituoso, só pra sacaneá-lo, respondeu num tom que poderia ser ouvido por todos os presentes:

- O nosso troca-troca vai começar daqui a pouco, logo que acabar a festa... Mas tem uma coisa, João, tu não podes ir conosco não. A tua mulher é feia pra caralho e quem ficar com ela leva desvantagem!!!

Dada a resposta, Pedro José abriu largo sorriso de satisfação, sorveu reforçado trago de uísque e caiu, dedos levantados, no meio da folia:

– ...cheia de encantos mil/Cidade Maravilhosa, coração do meu Brasil...