Juiz ladrão

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Quase todo cidadão boa-vistense com mais de 50 anos de idade conheceu Áureo Cruz. Nem que seja de ouvir falar. Elegante, galanteador, Áureo era uma espécie de príncipe no reino da Macuxilândia. 

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Nascido de família abastada, as poucas vezes em que trabalhou foram para tirar algum proveito social ou investir em nova paquera. Áureo, entre outras coisas, foi diretor e locutor da Rádio Difusora Roraima. Apaixonado por esportes, fazia parte da Federação Roraimense de Futebol e do quadro de árbitros local. Ele também era torcedor fanático do Atlético Roraima Clube. 

n Nalguma tarde dos anos 1960, Estádio João Mineiro lotado: bem umas 30 pessoas ocupavam o palanque coberto de zinco; umas 80 se aboletavam no alambrado de madeira que isolava o campo de terra. De terra não: de barro. Naquela época, não existiam gramados em Boa Vista. O povo esperava o início do clássico: Baré X Roraima. Naquela época, só havia dois clássicos no território: Baré X Roraima ou Roraima X Baré.n

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O primeiro tempo da partida terminou zero a zero. O segundo seguia modorrento, enquanto os atletas suavam a cachaça ingerida na noite anterior. Estavam mais pra tomar litros de água do que pra correr atrás da bola. O garoto que tomava conta do placar cochilava. Aos 32 minutos, Roberto recebeu um lançamento e, de trivela, chutou contra a meta guardada por Guilherme. Mário Rocha despertou e trocou um dos zeros pelo número 1. 
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Com o Baré ganhando de um a zero, Áureo Cruz, o árbitro, se desesperou. Ameaçou até expulsar o bandeirinha, porque este não tinha marcado o off side¹. Fim do primeiro tempo. 
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Da reposição de bola, depois do gol engolido por Guilherme, até os 45 minutos regulamentares, a equipe alvi-negra prendia a bola e administrava a vitória. A torcida festejava, antecipadamente, a conquista do troféu Governador do Território. 
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Quarenta e seis minutos. O árbitro, sem encarar o público, deixava a bola rolar. Quarenta e sete, quarenta e oito, quarenta e nove, 50 minutos… Abdala Fraxe ameaçava invadir o campo. Aos 57 minutos, Tracajá roubou a pelota do center half² barelista e, morrendo de cansaço, com meio metro de língua para fora da boca, chutou contra a meta de Zé Maria. Chute chocho. O goleiro escorregou, caiu e a bola entrou. O árbitro sorriu, deu um pulo com a mão fechada para cima para, em seguida, recolher a redonda e apitar o fim da partida. Pronto. A final do torneio ficou transferida para o próximo domingo. 
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Protegido pelos guardas territoriais, Maxixe, Duca, Coivara e Cento-e-seis, o juiz cruzava o portão do estádio sob protestos da torcida do Baré, quando Antônia Mariê aproximou-se de Áureo, meteu-lhe o dedo na cara e disparou:
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– Juiz ladrão!!!
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Áureo, com empáfia, antipatia, imponência, prepotência e ironia, respondeu à torcedora: “O juiz pode até ser ladrão, mas é soberano”.
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Aroldo Pinheiro
Aroldo Pinheiro
Aroldo Pinheiro é jornalista. Diretor Geral, Gerente Comercial e Editor-chefe do Jornal Roraima Agora. MTB 397/RR.
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