Domingo, 24 Outubro 2021 00:01

    Plínio Vicente: do jornalismo à literatura, misturando realidade e ficção

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    Plínio Vicente: do jornalismo à literatura, misturando realidade e ficção Aroldo Pinheiro

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    A recente leva de títulos em que jornalistas contam suas trajetórias de vida e profissional ganhou novo nome na extensa lista. Plínio Vicente, morador há quase 40 anos em Roraima, para onde veio ser correspondente do jornal O Estado de São Paulo, decidiu revirar seus alfarrábios e colocar no papel sua experiência profissional, até 1988.

    Conexão Amazônia está em retoques finais. São 490 páginas emocionantes, nas quais o repórter, pauteiro e editor mostra o realismo das grandes reportagens feitas por ele. A mais importante é internacional. Com extrema habilidade, ele consegue obter informação precisa sobre tortura durante a ditadura Argentina. Era o início do processo de transferência da família para o Norte (saiba mais no box).

    Mas o flerte de Plínio com a literatura começa há quase 50 anos, quando ele escreveu o conto O Filhote. Salete, sua esposa, encontra o texto no caderno. Lê, gosta e sugere ao marido inscrevê-lo no concurso literário promovido pela Prefeitura de Jundiaí (SP), onde a família morava. Ele tenta desconversar, mas Salete insiste e ganha a parada. Ainda bem. O Filhote foi o vencedor do concurso. Como prêmio, viagem a Lisboa. Plínio juntou suas economias, comprou outra passagem para a esposa, e lá foram os dois desfrutar de nova lua de mel em Portugal.

    A vida corrida do jornalismo, primeiro no interior, depois na capital da maior cidade brasileira, fez com que a literatura ficasse de lado. A notícia ocupava todo o seu tempo. Bons repórteres enxergam pautas instigantes com facilidade. Pois ele conseguiu inúmeras pautas de repercussão nacional, como a crise dos aviões Tucano, vendidos pela Embraer ao Governo de Honduras. Ele e o fotógrafo Fernando Estrela documentaram o pouso das aeronaves de guerra no aeroporto de Boa Vista. Plínio tirou do comandante da esquadrilha informações que ganhariam a primeira página do Estadão no dia seguinte. A venda de aeronaves àquele país estava proibida pela ONU (Organizações das Nações Unidas), porque Honduras estava em guerra contra El Salvador. O Itamaraty teve imenso trabalho para contornar o problema.

    Aos 79 anos, completados em abril, Plínio está longe de parar. É assessor da Prefeitura de Boa Vista, colabora com várias publicações (inclusive este jornaleco, na página 2), e, agora, entrou para o time dos escritores. Pelo aperitivo servido nesta reportagem, você já viu como a obra traz suspense, bastidores do poder, exemplos de como ser profissional de sucesso (acadêmicos de Jornalismo, fiquem atentos). Eu já li os originais. Vale cada linha. Podem acreditar.

    O homem bomba de Jundiaí

    A explosão daquela bomba no estacionamento do Estadão deixaria marcas na vida de todos os participantes da reportagem sob o título “Holocausto Argentino”, vencedora do Prêmio Rey de España, pela primeira vez concedido ao jornalismo impresso. Principalmente no dono da pauta: Plínio Vicente.

    A informação foi conseguida quando ele era editor do Jornal da Cidade, em Jundiaí. Certo dia, em papo noturno em restaurante próximo à redação, o auxiliar da editoria, um argentino a quem Plínio empregara, confidenciou ser, na verdade, refugiado. Ele fora um dos torturadores no regime militar. Disse mais: era capitão de fragata da Marinha argentina e estava envolvido até em mortes nos porões da Escola de Mecânica da Armada.

    Sem ter como desdobrar a pauta em jornal de médio porte, Plínio aguardou o momento certo. Quando começou a trabalhar no Estadão, apresentou a ideia à chefia. Depois de analisar o caso, inclusive com a presença do foragido, o jornal decidiu publicá-la. Foram seis edições com conteúdo devastador. São relatos duros, sem qualquer disfarce. Pouco depois, a reação chegou, com o atentado ao jornal, cuja repercussão alcançou até o exterior.

    Assustada, Salete pegou os filhos André, Thiago e Daniel, voltou para a casa dos pais, em Jundiaí, e deu o cheque mate no marido: “Quero ir para longe daqui”. Assim a família veio para Roraima. Hoje, eles comemoram a decisão, juntamente com os netos Paulo Eduardo, Gabriela, João Henrique e Maria Rita.

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    Fernando Quintella

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