Terça, 04 Setembro 2018 06:12

    O lotação nosso de cada dia

    Escrito por
    Avalie este item
    (0 votos)

    De segunda a sexta-feira, estou lá. Lá entre a avenida Mario Homem de Melo e a rua Cerejo Cruz. Eu os aguardo; logo eles passam. O que me surpreende são suas gentilezas – a educação polida na labuta diária. “Bom dia (já estou a bordo)!” O rádio quase sempre ligado no “Acorda Roraima” ou tocando músicas evangélicas. O programa sempre noticiando as mesmas coisas de sempre: é o café requentado de ontem.

    Passageiros embarcam e desembarcam. É gente de todas as etnias, línguas, cores... Às vezes, penso que nem eles sabem para onde estão indo. Bom dia! São homens, mulheres, indígenas, imigrantes, casais, crianças. Tanto faz quem são todos eles, o lotação é democrático. São poucos minutos dentro dele, mas percebo que o mosaico multicultural de Boa Vista é imenso. Bom dia! Às vezes o bom-dia se parece mais com um pedido de socorro: é como se cada passageiro, nesse curto percurso, fugisse do desespero do dia a dia. “Bom dia!”

    São muitas caras, muitos olhares, muito pouca esperança. Somos todos um só. Fomos transformados em muitas cópias de nós mesmos que se multiplicaram em muitos desses desconhecidos. “Bom dia! O Senhor vai descer onde?” “Passa na N-5?” “Vai pela Ataíde Teive?” “Passa no Cambará?” “Bom dia!”

    Ouço o rádio. Ouço a conversa da mulher que desceu antes de mim. Ela estava falando que sua colega de trabalho é uma traidora! A música gospel fala de alguém que foi salvo ao se converter. O senhor que estava sentado no banco de trás dizia que não sabia em quem votaria, mas não votaria mais na atual governadora de jeito nenhum.

    O imigrante venezuelano pergunta (em portunhol) se vai passar perto de algum lugar do qual eu nunca ouvi falar. O motorista diz que sim. Meu ponto de descida está perto. “Bom dia!” Seguimos nossa sina de motorista e passageiro, é o que somos todos: passageiros da vida.

    O táxi lotação é um dos melhores serviços de utilidade pública em Boa Vista. Eles sempre aparecem quando precisamos, seja para chegar ao trabalho, para fazer compras, para não atrasar a um compromisso, para ir ao encontro da pessoa amada, ou para simplesmente ir de um lugar a outro sem nada para ver ou fazer - nem lá, nem cá.

    Esses operários do volante e suas incríveis máquinas transportadoras são a prova da resiliência de nosso povo: somos fortes e guerreiros.

    “Bom dia (estou chegando a meu destino)”.

    Lido 157 vezes
    Hudson Romério

    Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
    Mais nesta categoria: « Os sósias Par de jarras »
    Jornal
    © 2015 Your Company. All Rights Reserved. Designed By JoomShaper

    Please publish modules in offcanvas position.