Sexta, 21 Setembro 2018 13:41

    Nem índio nem branco

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    Fazer cultura e arte é transformar o ordinário em extraordinário. Isso é o que faz o povo brasileiro com sua surpreendente criatividade ao armar estratégias de sobrevivência da maloca à senzala, da tapera à favela. Tudo que produzimos é uma referência de transcrição da cultura popular, quando, partindo das ferramentas dos orixás africanos, dos xamãs indígenas, cria-se uma sofisticada e construtiva caligrafia simbólica: nacional, regional e universal.

    A frágil fronteira entre o que é arte popular e o que é arte erudita é rompida por novos elementos inusitados de nossa cultura, a cultura brasileira, a cultura roraimense, em que toda nossa identidade é simples e transparente.

    Na efervescência cultural dos anos 80 surgiu aqui em Boa Vista o movimento “Roraimeira”, que é o nome dessa transgressiva ação revolucionária de nossa cultura - agora não defendemos mais uma identidade cultural regional - queremos uma “ENTIDADE UNIVERSAL RORAIMENSE-BRASILEIRA!”.

    Desde então, vários artistas locais assumiram essa entidade como forma de ver e compreender a poética do mundo a partir da precária realidade do nosso Estado (na época, território federal). Poderia, então, falar-se que muitos artistas se valeram de uma “estética da precariedade” usada com sofisticação e sensível inteligência construtiva? Inspirada, inclusive, na herança cultural indígena e dos muitos migrantes que cruzaram a grande floresta e transcriaram-se no caboclo: um brasileiro singular e ao mesmo tempo plural.

    O resultado é uma arte de transfiguração da rude realidade roraimense que dialoga sem fronteiras numa região ameríndia, queira ou não queira, rompendo todas as estruturas sociais e culturais de nossa alienada elite econômica e intelectual. E assim, nessa simbiose louca e inusitada, fomos concebidos roraimenses!

    Tivemos ainda o privilégio de nos mesclar com imigrantes de nações vizinhas, donos de uma cultura de raiz milenar que, ao cruzarem com pesar e dor nossos lavrados e matas, trouxeram a força e a magia da arte de seus deuses e ancestrais. Sobre essa diáspora de povos e etnias, Eliakim Araújo versou: “Tudo índio, Tudo parente”.

    Essa é uma pequena amostra do milagre de fé de várias culturas que se intercomunicaram (e se intercomunicam) para formar a consciência do povo roraimense, sociedade formada por seres humanos que há tempos usa uma sofisticada tecnologia a serviço da construção dessa bela identidade cultural. Estamos a urdir a textura cultural desta rica vida simbólica que se aviva a cada dia, a cada mês, a cada ano e ainda surpreende e emociona pelos inusitados diálogos interculturais dessa linda gente.

     

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    Hudson Romério

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