Segunda, 19 Novembro 2018 22:04

    João Cândido, o “almirante” negro

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    João Cândido, o “almirante” negro Arquivo Nacional

    Em 1910, amotinados, marinheiros conseguiram melhores condições de trabalho na Marinha brasileira

    A História do Brasil é mal estudada. Muitos fatos importantes, ocorridos ao longo desses mais de 500 anos  desde o descobrimento, são desconhecidos do grande público.

    Neste novembro, quando se comemora o Dia da Consciência Negra, o Roraima Agora joga um pouco de luz sobre a Revolta da Chibata, fato que abalou o regime, mudou o modus operandi da Marinha brasileira no que diz respeito a castigos aplicados a graduações mais inferiores e, só recentemente, chegou ao desfecho final.

    Entre 22 e 27 de novembro de 1910, uma rebelião, conduzida por marinheiros que  compunham a tripulação do navio Minas Gerais, apavorou o Rio de Janeiro.

    Na época, a maioria dos militares de baixa graduação da Marinha brasileira era composta por negros que, em sua grande parte, estavam ali para “não incomodarem” o convívio social das cidades.

    Ao infringir alguma norma, a marujada era submetida a castigo físico - no mínimo 25 chibatadas  - que, para servir de exemplo, deveria ser assistido pelos companheiros.

    Naquele novembro, uma punição de 250 chibatadas foi imposta ao cabo Marcelino Rodrigues, por ter ferido um colega seu a bordo do Minas Gerais. Liderados por João Cândido, um marinheiro de primeira classe, o controle do navio foi tomado, o comandante e mais três resistentes ao movimento foram mortos, deixando que o pânico invadisse o Rio de Janeiro – a capital do Brasil.

    Outros três navios aderiram ao movimento. Com canhões apontados para o Distrito Federal, o presidente Hermes da Fonseca viu-se obrigado a negociar com os rebeldes. No dia 26, com o anúncio de uma trégua, a revolta chegou ao fim. Durante as negociações, prometeu-se que não haveria mais castigos físicos e que os rebeldes seriam anistiados.

    Presidente sem palavra 

    Depois que os revoltosos devolveram os navios apreendidos e depuseram as armas, o governo os traiu: alguns foram expulsos da Marinha e presos, outros foram enviados para a Amazônia - para trabalhar na exploração de borracha - e houve casos de seres humanos fuzilados ou jogados na água, à própria sorte.

    Em Dezembro, marinheiros aquartelados na Ilha das Cobras pegaram novamente em armas para vingar-se do governo que os havia enganado.

    Na ocasião, havia seiscentos manifestantes; desses, pouco mais de cem  sobreviveram e foram presos na fortaleza de São José.

    Dezoito revoltosos, a quem o governo atribuía maior culpa, foram amontoados numa cela escavada na rocha. No dia seguinte, só dois estavam vivos: João Cândido e um marinheiro conhecido como Pau de Lira.

    Hospício e morte 

    Ao ser solto, João Cândido tentou reunir os marinheiros numa nova rebelião. Fez contato com Rui Barbosa e Severino Vieira, deputados favoráveis ao atendimento das reivindicações dos rebelados, mas, além de não conseguir apoio, a atitude de Cândido levou à sua expulsão da Marinha e recolhimento em nova prisão.

    Em Abril de 1911, João Cândido foi internado, como louco, no Hospital dos Alienados. Solto e absolvido no ano seguinte, tornou-se vendedor de peixes e estivador no mercado da Praça XV.

    Pobre e esquecido, João Cândido morreu em 1969, aos 89 anos, Não há registros sobre seus companheiros de rebelião.

    João virou samba

    Nos anos 1970, por meio de João Bosco e Aldir Blanc, a Revolta da Chibata voltou à evidência. No samba  “Mestre-sala dos mares”,  os compositores homenageavam João Cândido e referiam-se ao líder do motim como “o Almirante Negro”, apelido que lhe foi dado pela imprensa carioca. Para a censura, orquestrada por militares que detinham o poder no Brasil,  chamar o cabo revoltoso de Almirante Negro seria uma afronta, um  desrespeito. A gravação da música foi proibida. Esse sucesso, do final do século passado, só foi liberado depois que seus autores cederam à pressão e trocaram “almirante” por “navegante”.

    Trinta e oito anos depois de sua morte, em 22 de novembro de 2007, na Praça 15, área em que o ex-marinheiro perambulou com seus caixotes e peixes, uma estátua de João Cândido foi inaugurada. Em 24 de julho de 2008, o Diário Oficial da União trazia publicada a Lei n° 11.756, concedendo anistia ao irrequieto marinheiro. A reintegração do cabo à Marinha Brasileira, entretanto, foi negada.

    A anistia foi assinada por Lula, hoje condenado e preso por corrupção.

    Lido 403 vezes Última modificação em Terça, 20 Novembro 2018 08:48
    Aroldo Pinheiro

    Aroldo Pinheiro,  roraimense, comerciante, jornalista formado pela Universidade Federal de Roraima. Três livros publicados: "30 CONTOS DIVERSOS - Causos de nossa gente" (2003), "A MOSCA - Romance de vida e de morte" (2004) e "20 CONTOS INVERSOS E DOIS DEDOS DE PROSA - Causos de nossa gente".

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