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    Quinta, 11 Abril 2019 04:46

    As esquisitices do amor e outras tragédias número 1

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    Porque amar é preciso e viver não é mais preciso. Amar não é viver. Quem ama não vive. E quem vive de sonhar com amar saiba que o amor e a vida têm existências próprias, são aquém dessas e aquém da morte. São paradoxais em suas formas e conteúdos. As duas coisas não combinam: o amor é a existência sem vida e a vida é a existência em busca do amor.

    Quando vi minha cara no reflexo do espelho, não acreditei. Vi que não era eu! Mas era... Era eu refletido naquele pedaço de vidro. Aquela coisa era eu? Depois de quase cinco décadas eu não poderia ter me transformado naquilo ali. Naquela figura desfigurada era eu sim, metamorfoseado em algo que era eu.

    Eu, parado ali, naquela latrina, diante daquele espelho, vi que não tinha mais saída, era eu sim. Nem sei as horas. Nem sei que lugar era aquele. Eu, ali, inerte, vendo minha imagem, perdido em mim, achado dentro de um banheiro sujo, de um desses botecos da vida, dessa cidade que eu até esqueço que existe. Mas era eu...

    Sinto-me solapado em toda a minha estrutura. É estranho descobrir quem realmente somos. Depois de tantos anos, a transmutação física e moral nos mostra que, mesmo involuntariamente, é necessário passar pela vida e amar pelo menos uma vez.

    Foi numa dessas madrugadas quentes que eu já de porre, caindo pelas tabelas de uma cloaca imunda, descobri. Na verdade, revelou-se o que eu já sabia, descobri que não se morre por amor, como falei acima, não se morre daquilo que não tem vida. É isso que o amor nos causa, nos abala por inteiro, nos desestabiliza em toda a nossa fé - assim como o presente e o futuro.

    O amor não é um fato portentoso, não causa essas maravilhas que achamos que acontecem quando se está amando. Mas é um pouco de tudo, porque não seria nada se não fosse tão utópica a ideia de que amar é ser feliz.

    Então, mesmo sendo eu mesmo no reflexo do espelho, mesmo o amor não sendo vida e a vida sem amor não fazer sentido, prefiro a ressaca de um dia inteiro do que a esperança de um amor por toda uma vida.

    Foi catártica minha solidão. Só de tudo; só de todos. Até de mim mesmo. Depois de limpar os olhos e lavar o rosto, fitei-me por mais um tempo e vi um semblante já gasto pelo tempo – sei da infinitude do tempo e a minha finitude me fez crer em nada. Sei que a esperança é infinita, mas sei também que tudo é pra já. Sigo, então, minha vida simplória, já velho e cético de tanto acreditar no amor e tropeçar nas pedras da vida.

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