Pai herói

    Nas quentes noites dos anos 1980, eu me deitava em rede com minha filhota Mariana, então por volta dos cinco anos de idade, para cantar, brincar, contar-lhe histórias e fazê-la dormir.
    Eu gostava de inventar histórias de aventuras nas quais eu era sempre o mais corajoso, o mais forte, o herói. Mariana adorava. 

    Matei ursos, hipopótamos, tigres, onças – pardas e pintadas -, jacarés - tinga e açu -, cobras. Para Mariana, Jim das Selvas e Indiana Jones eram fichinhas perto de seu pai-herói.

    Um dia, contei-lhe que, em Brasília, eu estava no Circo Orlando Orfei quando, durante a ato, o domador, na jaula, com três leões, sofreu um infarto. A plateia se apavorou. Da primeira fila, vendo que ninguém fazia nada para conter as feras, antes que elas fugissem e comessem uns dois ou três espectadores, eu pulei a mureta que separava o picadeiro do público, peguei o tamborete que estava caído no chão, recolhi chicote caído e, com gritos, gestos e estalos do rebenque conduzi os gatões de volta para a jaula e, assim, evitei uma grande tragédia.

    Empolgado com o brilho dos olhinhos orgulhosos de Mariana, disse-lhe que, antes do fim do espetáculo daquela noite, "seu" Orlando me agradeceu publicamente e que fui aplaudido de pé pelas mais de mil pessoas que tinham vindo ao circo naquele dia.
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    Meses depois, inesperadamente, o Circo Orlando Orfei chegou a Boa Vista e eu prometi levar minha filhota a um espetáculo. De supetão, Mariana perguntou: "Não é aquele circo em que você salvou o domador?". Suspirei: "Meu Deus, ela se lembra de minha mentira".

    No domingo, quando cheguei ao circo para comprar ingressos, vi Orlando Orfei dando boas vindas ao público. Rapidamente, deixei Mariana com a moça que nos acompanhava, e me dirigi ao dono das lonas. Cumprimentei-o rapidamente e falei: "Seu Orlando, preciso de sua ajuda". E, sem dar-lhe tempo para responder, acrescentei: "Vou trazer minha filhota até aqui: tudo que eu perguntar, o senhor confirma?" Sem entender o que se passava, o italiano disse que sim. 

    Logo, com Mariana nos braços, eu perguntava para aquele homão vestindo elegante terno branco e alinhado chapéu panamá: 

    - O senhor se lembra de quando o domador teve um enfarte e eu salvei o pessoal do circo?

    - Lembro-me sim -, respondeu Orlando Orfei. 

    E era tudo o que eu queria: minha filha confirmara que seu pai era mesmo um herói.

    Não me sei quando Mariana descobriu que eu mentira muito na infância dela. Sei que gostava, pois, algumas vezes, ela pediu-me para contar minhas aventuras para Guilherme, meu neto.

    Simpatia pra curar viadagem
    Vai sem medo, amigo

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