Meu vizinho

    Conheci o meu vizinho. Gente boa.
    Não, não é um novo vizinho. Há mais de dez anos moramos próximos um do outro.
    Nossas conversas, até segunda-feira, se resumiam a simples bons-dias, boas-tardes, boas-noites. Quando passou disso, no máximo, uma reclamação do calor.
    Com o apagão de segunda-feira, pela primeira vez coloquei cadeira na porta da rua e, enquanto fumava cigarros, abandonei-me em pensamentos vazios projetados na espirais de fumaça. De alguma forma, tentava não ficar nervoso com a falta que o Jornal Nacional me fazia.

    Um pouco adiante de minha porta, sem internet, sem WhatsApp, sem SMSs, adolescentes e crianças se divertiam com “hierarquia militar” – brincadeira que fez parte de minha juventude e que, há muito, foi esquecida nos escaninhos das memórias de mais velhos como eu.
    Na noite de segunda-feira, aqueles meninos e meninas riam com um prazer que nunca tinham rido.
    Meu vizinho aproximou-se. Depois de tímida troca de boa-noite, convidei-o para sentar-se. Depois de aboletar-se em cadeira que lhe ofereci, o papo começou. Começamos falando mal do governo local, lastimamos a irresponsabilidade da Eletrobras, passamos por petróleo, mensalão, Dilma, Lula, corrupção local.
    Logo, vendo a diversão dos adolescentes ali perto, nos lembrávamos de brincadeiras de nosso tempo de meninos.
    Ofereci-lhe uma cerveja. Não estava gelada. Nem poderia estar, pois o apagão já durava quatro horas.
    Meu vizinho lembrou-se de um torresminho que sua sogra tinha preparado. Trouxe uma tigela com a comida para tira-gosto. Trouxe, também, uma cachacinha que recebera de Minas Gerais. Alternamos goles de cerveja quente com talagadas de cachaça fria.
    A conversa foi ficando cada vez mais animada. A risada dos meninos brincando ali perto trazia um pouco de vida à noite escura. O vento que vinha do Curupira era muito agradável. Comentamos nunca ter sentido aquela brisa gostosa ali na porta da rua.
    Enquanto estivemos ali sentados, as luzes se acenderam umas duas vezes. Conversa boa, nem pensamos em pôr um ponto final naquele encontro.
    Mais ou menos embriagados, nos recolhemos às quatro horas da manhã, quando as luzes se acenderam mais uma vez.
    Nos despedimos. Marcamos um churrasquinho ali na frente de nossas casas para o próximo apagão, que, sabemos, não demora muito.
    Adormeci pensando: “Meu vizinho é gente boa”.

    Os ovos do juiz
    Está em nossa frente

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