De pó para pó

    Ufa! O carnaval chegou ao fim. É hora de recolher a fantasia, respirar fundo e olhar pra quaresma. São 40 dias que vão da quarta-feira de cinzas à Sexta-Feira da Paixão. Para católicos e ortodoxos, o período se destina a penitências. A pessoa faz jejum, priva-se de carne e renuncia a prazeres. No primeiro dia da provação, o fiel vai à igreja e recebe cinza sobre a cabeça. O padre, então, lhe diz: “Lembra-te, homem, que és pó e ao pó retornarás”. Lembra-te também: quaresma se escreve com a inicial minúscula.

    Quaresma alfabética
    As letras têm a própria quaresma. Como os religiosos, submetem-se a sacrifícios. As ortodoxas chegam ao extremo. Emudecem. São escritas, mas não se pronunciam. Chamam-se dígrafos. São duas letras, mas apenas um som. Milho, por exemplo, tem cinco letras. Mas quatro fonemas (sons). O lh tem companheiros. Entre eles, ch (chave), nh (ninho), xc (exceto), rr (carro), ss (massa), qu (riqueza), gu (guerra). Heterodoxia
    “Xô, fundamentalismo”, dizem as heterodoxas. “Nós queremos falar.” Resultado: nem sempre qu e gu formam dígrafos. O grupo, então, se dissolve. Antes da reforma ortográfica, as rebeldes eram marcadas pelo trema. Os dois pontinhos davam um recado: ali estava uma heterodoxa. O trema servia para a visar que o u deveria ser pronunciado. O sinal se foi. Mas a insubordinação se manteve. Em delinquente, tranquilo, lingueta e linguiça o número de letras corresponde ao de fonemas. Sete pedidos
    Dizem as más línguas que há uma receita infalível para para fazer a passagem do reino de momo para o reino divino. É rezar o Pai Nosso — com fé, muita fé. Na oração, há sete pedidos. Ei-los: Pai Nosso, que estais no céu
    1. Santificado seja o Vosso nome
    2. Venha a nós o Vosso reino
    3. Seja feita a Vossa vontade assim na Terra como no céu.
    4. O pão nosso de cada dia nos dai hoje
    5. Perdoai-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores
    6. E não nos deixeis cair em tentação
    7. Mas livrai-nos do mal
    Amém. O manda-desmanda
    A prece recorre ao imperativo — forma verbal que manda, desmanda, pede, suplica. Cheio de manhas, ele tem uma senhora fragilidade. Precisa de ajuda para se formar. Recorre, então, ora ao presente do indicativo, ora ao presente do subjuntivo, ora a ambos. Vejamos o processo: Presente do indicativo: perdoo, perdoas, perdoa, perdoamos, perdoais, perdoam
    Presente do subjuntivo: (que) eu perdoe, tu perdoes, ele perdoe, nós perdoemos, vós perdoeis, eles perdoem O imperativo negativo sai todinho do presente do subjuntivo com o advérbio não na frente: não perdoes (tu), não perdoe (você), não perdoemos (nós), não perdoeis (vós), não perdoem (vocês) O imperativo afirmativo recorre aos dois tempos. O tu e o vós saem do presente do indicativo sem o s final. As demais pessoas saem do presente do subjuntivo: perdoa (tu), perdoe (você), perdoemos (nós), perdoai (vós), perdoem (vocês). Teste
    Que tal entrar no clima do sacrifício? Escreva o Pai Nosso com mais intimidade. Trate o Senhor de tu. Na próxima coluna você confere. A nota 10 lhe assegura um lugarzinho no céu e um bombom Godiva na Terra. Vamos lá?
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    Leitor pergunta
    “Pôs anúncio e não recebeu nem uma ligação sequer.” A palavra sequer não está sobrando? Soaria melhor “Pôs anúncio e não recebeu nenhuma ligação”. Ou não?
    Mauro Nascimento, lugar incerto
    São duas possibilidades. A primeira apela para o reforço. A segunda se contenta com o essencial. Fico com a segunda.

    RABO DE ARRAIA
    O tangedor de caranguejos

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