A vingança

    Desde que fora flagrado beijando uma das funcionárias da escola, o padre diretor passou a perseguir Abigobaldo. Tinha que manter o garoto sob controle. Tinha que mostrar quem era o dono do pedaço. Tinha que manter o menino de boca fechada.

    Usando de seus poderes, padre Genésio aplicou castigos e suspensões sem motivo ao aluno que, por essas coisas do destino, descobrira que, debaixo da batina do sacerdote, rolava tesão por mulher, como rola em qualquer homem normal.

    Abigobaldo que, sejamos sinceros, não era lá flor que se cheirasse, se consumia imaginando uma maneira de vingar-se do padre ditador e safado.

    Certa tarde, ao sair para tomar água, Abigobaldo viu a Vespa(*) do padre, solitária, à frente da cantina da escola. Ao constatar que aquela área estava longe do alcance da janela da diretoria ou de qualquer sala de aula, o menino decidiu que a hora da vingança havia chegado: cuidadosa e rapidamente aproximou-se do veículo sacerdotal, desconectou-lhe o cachimbo da vela de ignição, nele colocou um chumaço de papel e devolveu a peça a seu devido lugar.

    Ao fim das aulas, com alunos ainda no saguão do colégio, o padre ocupou seu lugar na motoneta e, depois de liberar o descanso, acionou o pedal de partida. Nada. Novo pisão no pedal eo motor do veículo não respondia. Mais um e nada.

    Vendo aquilo, o alunado voltou-se para onde estava o padre diretor e, silenciosamente, com sorrisos disfarçados, passou a torcer pela motoneta.

    Mais uma tentativa no pedal. Nada. A partir da quinta tentativa, alguém mais corajoso começou contagem exagerada. Dezessete... Dezoito... Dezenove... Vinte...

    O padre se irritava. Na face genesiana, a pele branca se avermelhara; os olhos estrábicos do sacerdote pareciam distanciar-se entre si cada vez mais.

    Padre Genésio apelou e, sem muito cuidado com a batina, resolveu tentar fazer a Vespa pegar no tranco. Engatou uma segunda, empurrou o veículo, nele montou, desceu a rampa do colégio, liberou o manete de embreagem, mas o motor da motoneta não respondeu. Alunos sentiam prazer assistindo ao insucesso do diretor.

    Carlos Casadio, professor de matemática e mecânico experimentado, veio em socorro do padre. Acionou o pedal de start do veículo duas vezes, abaixou-se, desconectou o cachimbo de vela, dele retirou o chumaço de papel, recolocou a peça em seu lugar e, na primeira nova tentativa, o motor da motoneta funcionou. "Isso foi mão de gente", acusou professor Caracará. O sacerdote, destilando ódio, xispando, tomou o rumo da Prelazia.

    Padre Genésio foi-se embora de Roraima, largou a batina, casou-se com uma mulher e morreu sem saber quem lhe aprontou a pegadinha.

    (*) Vespa - espécie de Scooter, da família das Lambrettas. muito usada nos anos 1960 

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