Ulisses Moroni

    Aprendendo com bananas

    Vou completar 50 anos de idade. Há pouco menos tempo disso, comendo bananas. Desde muito pequeno, sou comedor de bananas. Uma das primeiras compras que fiz foram bananas. Não saio de supermercado sem trazer uma quantidade desse fruto. 

    Já comprei bananas por unidade, por penca, por dúzia. Agora, por quilo. A penca de bananas é um nome há muito conhecido por mim: TUDO IGUAL , COMO NUMA PENCA DE BANANAS! Sinônimo de barato: A PREÇO DE BANANA! 

    Há algum tempo, fui comprar bananas em um comércio perto de casa. Algumas estavam penduradas na porta. O vendedor perguntou quantas palmas eu queria. Mas disse que também vendia o cacho. Não entendi a conversa, por incrível que pareça. Pedi meio quilo. O comerciante disse que não tinha balança: só vendia por palma e por cacho.

    Senti que ele falava algo óbvio, mas eu desconhecia o real significado. Humildade sempre é bom... Pedi-lhe para me explicar o que são exatamente CACHO e PALMA. Sua expressão foi de espanto, tipo eu estar brincando com tal pergunta. Para ele podia ser óbvio; para mim, não. O quitandeiro foi profissional - e paciente – na explicação. 

    A palma é aquilo que eu chamo penca, parte do cacho, ou sub-cacho.. Já o cacho é aquela parte que sai do caule da bananeira. Completo, contém umas cinco palmas. O cacho tinha um preço maior que a palma, claro. Utilizando vários cachos de bananas ali pendurados, ele usou um 'método' audiovisual de ensino. 

    Falou-me ainda que aquelas bananas não eram do sul de Roraima, produzidas para abastecer Manaus. Suas bananas são de Boa Vista mesmo. E, como a procura é grande, há muitos sítios com 80, 100 bananeiras para renda extra. Esclareceu que comprava bananas numa feira que, por sua vez, é abastecida por atravessadores – que negociam com os produtores. Tive meu segundo nascimento!

    Eu já vi muitos pés de banana, mas não imaginava como as frutas saem de lá para venda. Já encostei a mão em cachos, mas sem prestar atenção. Achava que ficava um monte de bananas penduradas. Pedi três palmas, e fui-me embora. Fiquei satisfeito: as bananas estavam ótimas! Descobri nova opção de comprar e conheci uma pessoa legal.

    Mas o animador nestas situações é o choque nas minhas verdades absolutas. Ver que nunca concluímos tudo sobre algo. Sempre surge uma nova imagem, no quadro que julgamos pronto. Vivendo, aprendendo e me desembananando.

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    Ulisses Moroni

    Acessibilidade: sentindo os obstáculos

    Eu estava caminhando, e também correndo um pouco, numa praça aqui em Boa Vista. Um dos muitos bons espaços públicos que temos, nem todas as cidades são assim. Praça agradável, havia muita gente por lá. Já apresenta sinais de deterioração, pede manutenção. Espero que não deixem se acabar.

    Eu corria, quando de repente acabou a energia. Ficar no escuro, sem energia, também outra peculiaridade local... Tudo escuro por alguns momentos. Mas, durar alguns segundos não quer dizer instantâneo. Alguns segundos podem ser momentos infinitos. E foram.

    Corria, estando bem aquecido. Tinha pegado um bom ritmo, boa velocidade para a ocasião. Aquela praça tem sarjetas altas, e várias rampas que rebaixam na calçada, para cadeirantes. Também havia algumas obras, havendo objetos nas pistas.

    Crianças brincavam, e ciclistas pedalavam. Outras pessoas correndo e caminhando.

    Quando a energia cessou, apagando a iluminação, até que a minha “ficha caísse”, eu ainda corri um pouco. E confesso me senti plenamente vulnerável! Vi-me correndo a pé no escuro total. Nos primeiros momentos é pior, pois ocorre a adaptação da visão. Já me preparei para um acidente tipo: cair em buraco, na sarjeta, colidir com criança ou ciclista, colidir e me esfolar nos objetos das obras que estavam espalhados, colidir com alguma das várias pessoas que ali estavam também correndo ou caminhando. E outras incontáveis formas de acidentar-se!

    Logo, parei. A minha visão se adaptou à reduzida luminosidade. Controlei a situação, e as demais pessoas também assim fizeram.  Fizemos todos um contrato silencioso de cautela. Os faróis dos veículos passaram a servir de guia. Não tive como não me colocar no lugar de um deficiente visual. SEM LUZ, O MUNDO PARECIA UM LABIRINTO DE ARMADILHAS! Ainda que eles se adaptem à sua condição física, deu para ter uma impressão das suas dificuldades.

    Também coloquei-me no lugar de quem utiliza muletas. Precisam manter o máximo de equilíbrio, podendo cair com mínimo degrau no solo. Recordei-me de Herbert Vianna, músico que se acidentou e hoje é cadeirante. “Para quem utiliza cadeira de rodas, degrau de um centímetro torna-se um muro!”, disse ele.

    Fui-me embora caminhando, me guiando pelas luzes dos automóveis. Funcionou, exigindo muita atenção. Nada melhor para entender as barreiras do outro do que estar no seu lugar. Todos que lidam com arquitetura urbana deveriam caminhar e empurrar carrinhos de bebê pelas ruas. Serão mais eficazes na sua atividade!

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    Ulisses Moroni

    Nada como o tempo

    Certa pessoa enfim foi pleitear o BPC – Benefício de Prestação Continuada. Este o nome correto do benefício concedido aos maiores de 65 anos. Chamamos impropriamente de aposentadoria. É concedido a todos, mesmo sem ter contribuído para a previdência. Basta ser considerado economicamente carente, de acordo com a lei.

    Lembrando que o BPC tem o valor de um salário mínimo.

    Nosso protagonista é um brasileiro honrado, cidadão exemplar. Trabalhou mais de quarenta anos, até que passou a ter problemas de saúde, e teve que reduzir as atividades. Ficou contando os minutos para chegar aos 65 anos e conquistar um pouco de tranquilidade.

    Trabalhou tanto na vida que até deixou de pagar suas contribuições previdenciárias. Se assim tivesse feito, já teria se aposentado. Mas, sempre pensou na família, criou e formou sete filhos. Também conseguiu que a esposa não precisasse trabalhar enquanto os filhos eram pequenos.

    Para receber o Benefício de Prestação Continuada, necessário analisar a renda de todos que moram na casa. Quando ele preencheu o cadastro, colocou ela como sua companheira em união estável. Quando foram analisar os dados dela, constou que ela era casada, mas com outro homem! Isto parou o processo, esclarecimentos seriam necessários.

    Eles viviam juntos já mais de trinta anos, em união estável. Apenas com a força do amor, e sem papeis, como ele se orgulha de afirmar. Na juventude, ela foi casada formalmente com um sujeito trinta anos mais velho. Era ainda uma menina e, de hora para outra, foi viver com um estranho como sua esposa. Não deu certo e, antes que viessem filhos, ela foi-se embora, sem olhar para trás. Para não ver mais o antigo marido, nem foi atrás de fazer o divórcio legal. No ‘papel’, ela permaneceu casada com ele a vida toda. Sofreu demais, tanto que tentou esquecer tudo. O que gerou o problema para o homem de sua vida.

    Necessário identificar seu esposo, para resolver a situação previdenciária. Algo burocrático, mas inafastável. Ela dizia que o ex-marido chamava-se TIÃO DE TAL. Então, buscou-se incansavelmente um SEBASTIÃO. Até que ela encontrou um documento antigo, e constatou que o nome do ex-marido era JOÃO DE TAL!

    Fizeram pesquisas no órgão previdenciário, e constatou-se que JOÃO DE TAL tinha falecido há apenas um ano. Tudo esclarecido, foi deferido pedido do BPC. Disse que aquele período foi tão triste para ela, que resolveu esquecer tudo que conseguisse. Depois de um tempo, nem mesmo recordava o nome do ex-marido! Como diz o ditado, “o tempo cura todos os males!”

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    Ulisses Moroni

    Monteiro Lobato: infância e brasilidade

    Saudade, muita e boa saudade!

    Esta a melhor para palavra para descrever a sensação que tive ao ver uma foto do principal elenco da primeira versão do "Sítio do Pica-pau Amarelo" - série de televisão baseada na obra do escritor Monteiro Lobato, criada e transmitida pela Rede Globo no final dos anos setenta e início dos oitenta.

    Os personagens da foto eram Dona Benta, Tia Anástacia, boneca Emília, Visconde de Sabugosa, Pedrinho e Narizinho. Estes os principais, de todos os episódios.

    Mas havia outros, a bruxa-jacaré Cuca, o saltitante Saci Pererê, Tio Barbabé, o porquinho Marques de Rabicó, o burro-sábio Conselheiro...

    Vendo isto, parece que retorno no tempo. Meus pensamentos voam e, como num filme, assisto-me em uma cena.

    Estou saindo da escola, segundo, terceiro ou quarto ano do primeiro grau.

    Naquele tempo se chamava assim. Hoje, o quarto e quinto anos do ensino fundamental.

    Eu saía das aulas querendo chegar logo em casa, para assistir ao 'Sítio'.

    Estudava à tarde. Saía rápido pelas ruas entre a escola e minha casa, calculando a velocidade dos passos para chegar na hora de o programa começar.

    Usava uma mochila tipo pasta, ia alternando de uma mão para a outra, para não incomodar.

    Antes, um copo de leite, pãozinho, alguma fruta, e... televisão!
    Quantas gerações de brasileiros não fizeram isto.

    Depois as crianças da série cresceram, e colocaram outras. Mas a primeira versão é inesquecível.

    Quanta infância, quanta alegria, quanta criatividade.

    A magia de Monteiro Lobato, a competência dos atores e produtores.

    Sim, pois os artistas da televisão se uniram com o artista das letras.

    O resultado foi sempre um bom episódio.

    Havia humor, suspense, conhecimentos técnicos e morais, inteligência emocional.

    Quanta alegria, que saudade!

    Pergunto-me se Monteiro Lobato teve aquela infância? Ou se inspirou na de seus filhos? Se foi assim, que paizão foi ele.

    E, porque não falar, quanto brasilidade!

    A Cuca, apareceu aqui agora.

    O Visconde de Sabugosa, sempre um cientista, um sábio.

    Emília, a percepção feminina aguçada em tudo que olhava.A música tema, seu refrão, "Sítio do Pica-pau amarelo, sítio do pica-pau amarelo...! Um trecho da música de um episódio: "Sete piratas sobre um caixão, ho!, ho!, ho!, e uma garrafa de rum. No fim da bebida, saiu confusão, ho!, ho!, ho!, e não sobrou nenhum! Tum tum tum tum tum tum". Cantada em coro. Que boa recordação!

    Passado sim, mas a alegria inesperada que estas lembranças trouxeram é presente, sentida aqui e agora.

    O bom passado é sempre presente, uma alegria conquistada na estrada da vida.

    Que o espírito de Monteiro Lobato reencarne, para criar histórias na era da internet, para as crianças de hoje!

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    Ulisses Moroni

    Onde há vida há esperança (cada pessoa, uma lição)

    No meu trabalho, conheci um senhor que sofreu acidente grave. Ao mergulhar em um rio, ele bateu a cabeça e fraturou a coluna e, como consequência, está tetraplégico. Está, em linhas gerais, sem movimentos nos braços e pernas. O cérebro não consegue mandar seus comandos, devido à lesão na coluna cervical.

    Eu iria falar que ele FICOU tetraplégico. Mas, depois da conversa que tive com ele, vou dizer que ele ESTÁ tetraplégico.
    O acidente ocorrera há uns vinte anos.

    Com uns cinquenta anos, ele estava acompanhado dos filhos, que o ajudavam.

    Falei bastante com ele, possibilitado pelo momento.
    Iniciou-se naquela conversa, ali, uma aula de vida para mim.
    Contou-me que, em verdade, sofria de tetraplegia em menor grau. E explicou os diversos tipos desta situação.

    Até aquele momento, eu achava que todas as situações de tetraplegia eram iguais. Depois da conversa, vi que existem classificações.
    Falou da ida ao Hospital Sarah Kubistchek, em Brasília, referência mundial nesse tipo de tratamentos.

    Lá chegando, os pacientes são encaminhados para uma determinada ala, onde estão internadas pessoas com lesões mais graves que a daquele que chega.

    Ou seja, o acidentado, agora paciente do hospital, verá pessoas que estão em situação de saúde pior que a dele.

    E, no caso específico de meu personagem, realmente havia pessoas em situação pior, com mais limitações ou lesões.

    Saber, e ver, que sempre tem alguém que pode estar em situação mais desfavorável que a nossa é, talvez, o primeiro tratamento que aquele hospital oferece. Remédio gratuito contra a tristeza e a insatisfação.
    Lá, nosso tetraplégico recebeu orientações sobre novas atividades, como postura, higiene, comunicação, dentre outras situações.

    Seguindo na conversa, falou-me sobre as pesquisas com células-tronco. E como estas poderão recuperar órgãos danificados de muitas pessoas como ele.

    Explicou que no Brasil as pesquisas seguem determinada linha de pesquisa, enquanto outros países seguem outra.
    O brilho nos olhos dele era forte, quando falava sobre as pesquisas com células tronco.

    A esperança é um combustível para a vida. Seus olhos mostravam isso.
    Diálogo finalizado, tive a experiência de me sentir melhor e maior.
    Saí de lá aprimorado como pessoa.

    Aprender sempre, a todo tempo com qualquer pessoa.

    Todos sempre têm algo a nos ensinar. Exercitemos a humildade.

    Acreditar sempre que nossa vida, e o mundo, podem e irão melhorar.
    Esperança, um combustível da vida!

    Gratuito e a ao alcance de todos.

    A qualquer tempo, em qualquer lugar.

     

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    Ulisses Moroni

    Está em nossa frente

    Há pelo menos uns cinco anos, aqui mesmo em Boa Vista, sempre passo defronte a certo estabelecimento comercial .
    Normalmente de carro; às vezes a pé mesmo.
    Vou geralmente aos comércios vizinhos dali.

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    Ulisses Moroni

    Usar o celular, e não ser refém dele

    O celular talvez seja uma das criações mais revolucionárias do homem.

    Recordo-me quando não havia celulares, e vivia muito bem.

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    Plinio Vicente

    Morte feliz nos braços da sereia

    Apolinário era solitário. Solidão que só aumentou com a idade, mal que fez de sua alma morada de demônios, que se multiplicavam à medida que ia aumentando as doses de cachaça. Corpo e mente debilitados, quando voltava da venda para o casebre em que vivia na beira do rio,

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    Ulisses Moroni

    Tão jovem e vendo maldade em tudo

    Tão jovem e vendo maldade em tudo

    Nestes dias vi poema e viajei na minha memória. “Retornei” a 1984, à escola onde eu cursava o primeiro colegial. Aula de literatura.

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