Nascido há 71 anos em Nova Europa, região de Araraquara, mas criado em Ribeirão Preto, no então distrito de Guatapará, o jornalista Plínio Vicente da Silva ainda convive com os danos provocados pela pólio.


    Profissional com passagem por vários veículos (rádio e jornal), entre eles O Estado de São Paulo, começou a carreira em Ribeirão. Sua primeira experiência foi como estagiário em O Diário, responsável pelo fechamento da coluna “Lupa e Capote”, onde publicava um resumo das ocorrências policiais da noite.

    Plinio Vicente

    Mendigos, milionários

    Juquinha era flanelinha e vivia num muquifo. Em outro morava Rosinha, que fazia bolinhos de chuva e saia vendendo pelos sinais. Sempre repartia com ela o que conseguia a mais. Mas nunca passou disso. Eram tão pobres que não dava para levar uma vida melhor, a não ser sonhar. Depois de uma manhã de boas gorjetas, convidou a companheira de infortúnios e decidiu levá-la para almoçar num restaurante. Não conseguiram, foram barrados na porta. Motivo: roupas mal trajadas. Comeram bolinhos de chuva. Ao passar na frente de uma casa lotérica, Juquinha entrou e jogou na mega sena. Ganhou sozinho. O nacibo mudou sua vida e a de Rosinha. Comprou o restaurante e fez dela sua mulher e a chefe da cozinha. 

    Nacibo - [Do ár. na,Cb, ‘porção’, ‘lote’; ‘fortuna’, ‘sorte’.] - Substantivo masculino - 1.Sorte, fortuna.

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    Loirinho e a puta Ritinha

    Loirinho, piloto, feinho, voava para o garimpo levando de tudo: comida, combustível, putas e principalmente garimpeiros. Sua base era a pista do Paapiú, mas fazia muitas pernas, o que lhe tomava quase todo o dia. Saia com o raiar do sol e voltava quando ele se punha, cansado, sem ânimo para nada, a não ser o banho, janta e cama. Sentia falta de mulher, só que não tinha tempo para ir até o puteiro. Um dia, levando Ritinha ‘boca de ouro’, no meio do voo arriscou uma cantada. Ela topou. Acertou preço e horário, só não o lugar. Para não perder a transa, assim que aterrissou foi ali mesmo, na nacela. Depois das pernas de Ritinha, foi cuidar das outras, de pista em pista, feliz, floresta afora...

    Nacela2 - [Do fr. nacelle.] - Substantivo feminino - Espaço da fuselagem ou cabina dos aviões pequenos destinado ao piloto, à tripulação ou, eventualmente, a passageiros.

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    O emporcalhado

    Jucimar era sujeitado arretado, atirado, sem medo de nada, não enjeitava desafio. Caminhoneiro, certa vez teve que parar uns dias numa vila do interior à espera do conserto de seu 12 rodas. Não havia o que fazer e na tarde do sábado, andava à toa quando ouviu a voz de uma jovem, pedindo ajuda. Correu e ficou sabendo: ela levava uma leitoa para vender e fazer dinheiro para a feira quando a bicha escapou e escafedeu-se brejo adentro. Encantado com a beleza da moça, e sabendo que o tédio estava por acabar, não teve dúvidas: atirou-se à caça da suína. Quando voltou com leitoa nos braços, todo sujo, labreado, ganhou uma recompensa que jamais esquece: o regaço quente e acolhedor de uma cabrocha. 

    Labreado - [Part. de labrear.] - Adjetivo - 1.Bras. N.E. Sujo, emporcalhado, breado, lambrecado.

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    A mocambeira de lábios de mel

    Maceió, ainda pequena, praias de arrecifes alagoados e outros encantos, levaram Casimiro vir de longe para conhecer os lugares de que tanto ouvira falar. Solitário, arredio, de pouca conversa, arranjou um guia, Manduca, que depois de levá-lo pra todo canto, propôs uma visita às lagoas no rumo sul. Alugaram um barco e foram entrando Mundaú adentro, gente pescando, gente passando, nada demais. Até que se deslumbrou com a jovem morena, labirinteira, na porta de um mocambo, sorriso nos lábios que mais pareciam favos de mel. Virou catador de sururu, fez do Mundaú seu novo lar e hoje quem quiser saber por onde anda Casemiro, basta ir à lagoa e o verá nos braços da sua mocambeira dos lábios de mel.

    Labirinteira - [De labirinto + -eira.] - Substantivo feminino - 1.Bras. N.E. Mulher que faz labirinto (9): 

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    Poesia e despudor

    Napoleão era bom de escrita. Letra bonita, caprichada, sonhava ser jornalista, mas Juraci, dono do hebdomadário de Serra Branca, onde morava, não ia muito com a cara dele. O considerava inteligente demais para seu gosto. Na verdade, era pura inveja e ciúme, medo de ver alguém melhor que ele no arranjo das letras. Certo dia Jura recebeu uma colaboração anônima, pequena crônica falando das belezas das moçoilas serra-branquenses. Espantou-se com o texto bem escrito, as palavras elegantes, poesia temperando as linhas. Assuntou, desconfiou e antes de publicar, quis saber do autor. Não publicou e ao ser questionado do porquê, apenas respondeu: “É um labéu que despudora a pureza de nossas virgens”.

    Labéu - [De or. obscura.] - Substantivo masculino - 1.Nota infame ou infamante; 2.Mancha na reputação; desdouro, desonra.

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    O doutor

    Figura labróstica, vestia sempre as mesmas roupas. Barba espessa e os cabelos desgrenhados, as crianças tinham medo do fantasma ambulante quando ele aparecia na vila. Não lhe davam conversa, nem sequer bom dia, boa tarde ou boa noite. Certa vez, quando chegava à venda pra comprar o básico da semana,

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    O tangedor de caranguejos

    Wagner Paiva da Silva - para os íntimos, para os colegas de farra, para as
    putas: Vaguinho. O caboco sempre foi bom de farra e adorava cabarés. Casou-se com Janaína, mas não se aprumou. Aproveitava todas as vantagens da vida conjugal: comidinha caseira, roupinha lavada e engomada, mulher cheirosa a esperar para carinho e vadiagem, etc., mas vivia o resto do tempo como se solteiro fosse.
    A esposa acostum

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    Plinio Vicente

    O amor revelado aos berros

    Ele sempre foi um sujeito tranquilo. Tinha a capacidade de afastar todo tipo de agressão, fosse ela ao seu corpo ou à sua mente. Mas já lá pelos 18 anos, descobriu um outro eu que existia dentro de si. Tudo porque, paixão secreta pela moreninha colega de faculdade, não conseguiu impedir que um acesso de fúria se transformasse numa reação quase incontrolável.

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    Plinio Vicente

    A santa que venceu a morte

    Quem a vê, um pingo de gente, não imagina a guerreira que habita em sua’lma. Essa têmpera ela forjou ainda no ventre da mãe, menina de aldeia que, levada pela paixão descontrolada,

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    Plinio Vicente

    O amor pisando em brasas

    Quinzinho, roceiro aquietado, tinha uma fraqueza. Ritinha acendia nele a chama da paixão. Certa noite, quadra de São João, a encontrou na festa da fazenda. Graciosa, bonita, conseguia despertar em sua alma quase uma obsessão. Lá pelas tantas, fogueira queimada,

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    Plinio Vicente

    Morte feliz nos braços da sereia

    Apolinário era solitário. Solidão que só aumentou com a idade, mal que fez de sua alma morada de demônios, que se multiplicavam à medida que ia aumentando as doses de cachaça. Corpo e mente debilitados, quando voltava da venda para o casebre em que vivia na beira do rio,

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    A mãe do valentão

    Seu Leôncio, oitenta e tantos anos, sorvia calmamente uma dose de cagibrina, chapéu na cabeça. Terêncio, façanheiro desrespeitoso, passou e junto com um “eu sou é macho!” deu-lhe um tapa que fez voar o chapéu do ancião. Seu Leôncio levantou-se, pegou calmamente o chapéu, ajeitou-o e continuou nos goles compassados da bebida. Terêncio passou de novo e repetiu o tapa no meio do “eu sou é macho!”. Leôncio foi lá e com a mesma calma apanhou o chapéu. Quando Terêncio veio pela terceira vez o velhinho lhe perguntou: “Por acaso vossa
    graça é filho de dona Mariquinha?”. O valentão brecou os passos e respondeu: “Sou, sim. Por quê?”. Seu Leôncio foi curto e grosso: “Tracei muito a senhora sua mãe...” Façanheiro - [De façanha + -eiro.] – Adjetivo - Substantivo masculino - 1.Que ou aquele que alardeia façanhas; gabola, bazófio, valentão.

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    Plinio Vicente

    A donzela e o despacho

    Passava pela mesma calçada e parava sob a mesma janela na esperança de que ela se debruçasse no umbral e lhe desse um sorriso. Nada, pois mesmo quando já estava enfeitando o batente com sua beleza, fazendo dele uma tela de pintura, bastava vê-lo para sumir.

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    O baio do capitão

    Os donos traziam seus animais e nos fins de semana o local se transformava numa grande feira. Totonho era quem cuidava dos bichos. A maioria dos cavalos era da raça manga-larga. Chegando de viagem, capitão Juca Barros apartou um da tropa, o baio com uma marca, façalvo que o distinguia dos demais,

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    A dama era de araque

    Tonico tinha fama de bom fabro. Mas certo dia descobriu que beleza e mecânica não se misturam. Foi assim. A dona parou o carrão na sua oficina, desceu elegante e majestosa e perguntou-lhe se podia ver o motor estava esquentando tanto. Enquanto ela se refrescava na vasca de água de poço ao lado

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    A quenga do coronel

    Betinho, músico sem carreira, fazia biscates para sobreviver. Certo dia recebeu uma proposta que mudou sua vida. Recebeu proposta para ensinar a quenga de um poderoso que queira ser cantora profissional. A moça veio, ele se encheu de olhos por ela e topou. Por dos motivos: a grana era boa e a dona um pitéu.

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    Detetive das antigas

    Terêncio era servidor exemplar, desses para quem o trabalho é uma religião. Não estudara, mas por ser tão dedicado e por ter comprovada experiência, foi nomeado para o IEDIC

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    Aninha e o príncipe encantado

    Aninha, tão linda, despertava paixão nos jovens de sua aldeia. Muitas vezes, o sentimento por ela os levava a tentativas de conquista.

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    A besta do Suapi

    O Suapi fora tomado por um enorme vazio desde que seu Levindo se fora. Todos, no vale do Cotingo, sentiam falta daquele fizera um garimpo ser conhecido Brasil afora como o seio dos

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    O baiano e a boneca

    Zelão viera da Bahia trabalhar na construção da BR-174 e com ele, outros da boa terra. Unidos pelas origens, tinham os mesmos hábitos de alimentação, música e religião:

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    A fúria da natureza

    Jamais vira a natureza se manifestar de maneira tão furiosa. Foram dias e dias, mais de mês, de tempestades que pareciam querer engolir tudo naquele fim de mundo.

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    O doce sabor da selva

    Aprender com os índios a sabedoria da vida fez com que Antônio acabasse adotando os costumes da aldeia. Incorporou no seu dia-a-dia valores morais e espirituais e a

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    Anjos-da-guarda

    Aristeu garimpou Amazônia afora, bamburrou e blefou, gastando o ganho com mulher e cachaça. Perdia as amantes por não conseguia se livrar da manguaça.

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    A pedra sagrada

    Mamede nasceu nas margens do rio Purus. Filho de árabes, ficou órfão e foi criado por família cristã, que o adotou para não deixá-lo no abandono.

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    O peão e o valentão

    Manezinho era peão dos bons, amansava burro xucro e fazia dele carneirinho. Certa vez o patrão o mandou ir examinar um rebanho que queria comprar.

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    As babas de João de Deus

    Ainda criança ele descobriu que seria vítima de muitas babas vida afora, como a babugem que lhe escorria pela boca; ou a baba das vacas que ordenhava a mando do pai.

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    Milagre no Maruai

    Quando o avião tocou o solo, evitando a ruma de cupinzeiros que infestam o lavrado roraimense,

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    O cananeu e o galileu

    As notícias se espalhavam, falando dos milagres creditados a um desconhecido rabi da Galileia. Pastores tocando seus rebanhos nas montanhas;

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    O espírito do mal

    Encontrou toda a comunidade abalada com o que ocorrera na noite anterior, quando o velho tuxaua, agindo de forma tresloucada, pôs fim à sua vida. Percebeu que, enquanto o corpo era preparado para o ritual de despedida, uma profunda tristeza passeava pelas veredas da aldeia.

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    Amor na selva

    Quando pôs os pés na aldeia sentiu o ambiente um tanto ababelado. Os anciãos não se entendiam, os mais jovens se ameaçavam e as acusações cruzavam o ar como flechas envenenadas. Apaziguou os ânimos e quis saber os motivos de tamanha balbúrdia.

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    A pena de mutum

    Guardou no farnel do marido uma porção de aaru. Pôs junto uma pena de mutum para lhe dar sorte, pois guardava na alma a angústia de vê-lo partir e o temor de não vê-lo voltar. Era uma longa viagem entre a aldeia e a cidade,

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    Tentação e pecado

    Era visto como um símbolo aarônico, tamanha a sua sabedoria e religiosidade. A solidão da selva o fez apegar-se à fé para enfrentar os demônios que transformavam sua alma em inferno. Com o tempo, novos costumes transformaram suas crenças num suplicio.

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    A caganeira do Eustáquio

    A caganeira do Eustáquio

    Eustáquio era o marido imperfeito, daquele que mulher só arruma porque se descuida.Todo sábado ele vestia o terno de brim impecavelmente branco,jantava e metia o pé na direção do salão de baile. Só voltava para casa com o sol batendo

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    O judeu ‘paraguaio’

    O judeu ‘paraguaio’

    Desde menino, como bom carioca, André não dispensava uma feijoada. Cresceu, estudou, se formou e um dia descobriu que a avó materna, que não conheceu, era judia.

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    Plinio Vicente

    Prestação de contas--

    Era uma vez, num reinado imenso, um povo que se dizia feliz, apesar de cobranças de impostos absurdos, juros altíssimos, inflação fugindo ao controle e desmandos de toda sorte.

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