Morto é morto

Em Rurópolis, sul do Pará, aproveitando derrubadas de enormes árvores – suas e à sua volta – seu Manel adquiriu equipamentos e montou funerária que seria explorada pelo filho, Tuísca.

De repente, uma tragédia! Na saída da cidadezinha, uma caçamba capotou. 14 mortos. O prefeito determinou que seu Manel fabricasse caixões para os desgraçados que tiveram o azar de morrer naquele fim de mundo.

Seu Manel e Tuísca festejaram. Em um só dia, venderiam mais caixões do que venderam nos últimos cinco anos. Com pagamento antecipado, largaram o pau a construir ataúdes.

Com os caixões acomodados no Mercedes 1111, o pessoal chegou ao galpão onde estavam os cadáveres. Combinados sobre o sistema a ser usado no reconhecimento e acomodação, seu Manel gritava: "Aroldo Pinheiro de Souza!" Tuísca, entre os corpos, localizava o nominado e respondia: "Presente!" O corpo era encaixotado e recebia papel de identificação.

Um, dois, três, oito defuntos reconhecidos, prontos e acomodados em seus respectivos paletós de madeira; seu Manel seguia na chamada: "Moisés Brasilino Filho!"

Tuísca se aproximou de defunto vestindo calça rosa de lycra, camisa azul degradê, com lenço de seda ao pescoço, e respondeu: "Presente!"

Ao tentar arrastar o corpo, ouviu um sussurro efeminado:

– Moço, eu não tou morto...

– Papai, venha cá: esse cara diz que tá vivo! – Apavorou-se Tuísca.

Seu Manel, papéis à mão, aproximou-se e ouviu o caboclo bodejar: – Eu tou vivo.

– Vivo? Tu tá doido? – Questionou seu Manel, com medo de ter que devolver dinheiro por caixão não utilizado e, vendo o jeito estranho daquela aberração, acrescentou: "Olha, mana, tu pelo menos sabe escrever?" O empresário suspirou, puxou o moribundo pelos braços, acomodou-o no ataúde e encerrou: "Moisés, o doutor estudou muito pra se formar e disse que tu tá morto; o papel que o doutor assinou diz que tu tá morto... Agora, tu quer discutir com o doutor e com o atestado de óbito? Tu tá morto e vai ser enterrado, pronto!"

Fez força, acomodou o gordo no caixão, jogou-lhe a tampa em cima e determinou:

– Tuisca, aparafusa aí bem apertado, pois esse qualira é meio teimosinho!

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Os novos bodes expiatórios de um sistema falido
Cabaré familiar
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