Jipe velho (mas tinindo)

E eis que aquela "linda criança que, na pia batismal", segundo Laucides Oliveira, em edição de março de 1954 do jornal O Átomo, "receberá o nome de Aroldo", chega aos 64 anos. Não doeu. Nem deu pra sentir. Como diria o papagaio: "Num tô tintindo nada".

Olhando pra trás, vejo que cometi alguns erros. Mas quem não errou? Cristo, filho de Deus, nascido em Belém, cometeu seus deslizes; por que não eu, filho de migrantes cearenses que vieram para estas plagas em busca de dias melhores, aparado por mãos de parteira, passaria em branco? Na contabilidade da vida, vejo mais acertos do que erros. Passando a régua, estou no saldo. Minha norma é usar erros como base para acertos. 

Espiritualmente, sou mais completo do que muita gente. Calma, Santa, eu explico. Criado sob orientação católica apostólica romana, recebi todos os sete sacramentos preconizados pelo Vaticano: batismo, confissão, arrependimento, comunhão, crisma, casamento e extrema unção. É, sou extremo ungido. Aos treze anos de idade, quando à beira da morte por causa de acidente, minha alma foi encomendada a Deus por padre Mauro Francello.

Não sei se ainda vale, mas, se valer, tenho mais chances de aproximar-me Dele do que muita gente. Como diria Ibrahim Sued: "Sorry, periferia".

Se escolhesse um carro para comparação, acho que eu seria um jipe. Não desses jipinhos furrecas fabricados por japoneses, chineses e coreanos; seria um daqueles robustos, com farol alto e para-choque duro.

As peculiaridades de um motor quatro tempos estão tinindo: alimentação, ignição, explosão e escape. O sistema digestivo vai bem, obrigado: comendo de tudo. A vela lança centelhas de fazer inveja a muitos desses motores modernos. A explosão nunca falhou e sempre responde nas horas certas. O escapamento é zerado, do jeitinho que veio do fabricante. Salvo algumas incursões para revisões periódicas, o Kadron nunca recebeu corpos estranhos. 

Lataria. Ah, a lataria. Esta, que nunca passou por lanternagem, tem alguns pequenos amassados no ferro e trincas na pintura. Em nome da originalidade, melhor não mexer. Pode ser que o resultado seja desastroso.
Quase me esqueço da capota. Como diz Cearazinho, meu filósofo de boteco, a capota "tá um pouco 'distiorada'". A cor negra vinílica, de fábrica, vem cedendo lugar para manchas brancas. Aqui, acolá, uma falha. Mas, tudo bem; quem precisa de capota no calor miserável desta nossa terra querida?

No dia de meu sexagésimo quarto aniversário, acordei pensando em me desfazer dessa máquina. Depois, raciocinando com calma, lembrei-me que não se troca o certo pelo duvidoso.

Para alegria de uns e tristeza de outros, esse jipão, modelo 1954, ainda há de colher alguns cajus.

Parabéns à Willys Overland do Brasil por ter colocado no mundo uma máquina assim.

Obrigado a papai e mamãe por terem me feito, como dizem mineiros, "desjeitim".

Brigar com o destino pra quê?
Sequestrador ciumento
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