Bons enganos

Era mais uma de muitas viagens de avião, tendo eu criado muitas e variadas referências sobre as aeronaves e sua tripulação. Uma característica que se mantém desde que voei pela primeira vez, para mim, é a idade média do jovem pessoal de apoio. Talvez porque este trabalho exige muitas horas fora de casa, além do desgaste físico natural da atividade. Isto não se aplica aos pilotos, que devem ser experientes!

Pois, naquele voo, fui recebido por uma aeromoça que aparentava mais de 60 anos. Uma 'aerovovó'! Achei-a com olhos cansados. Esticou os braços para ler meu bilhete. Mas não usava óculos.

Decolamos e ela acabou ficando na minha frente. Involuntariamente passei a observá-la. Em solo, ela usou o telefone celular. Falou com algum telefonema. Foi mais enfática, dizendo que precisava estar junto ao interlocutor, mas não podia, pois tinha que trabalhar ali.

Passou com o 'carrinho' oferecendo produtos pagos com cartão. Pediu para um colega passar o cartão na maquineta, dizendo que 'não conseguia aprender a usar aquilo!'

Muitas pessoas na idade dela já estão aposentadas, ou têm um trabalho mais suave. E ela ali 'dando duro', igualmente a outros mais jovens. Fiquei sensibilizado.

Fui ao banheiro e aproveitei para beber água na sala de apoio. Ali estava aquela senhora. Perguntei qual era o destino final do voo. Disse-me que era Recife, para onde ela já voava há mais de 20 anos!

Falou que já tinha tempo para se aposentar como tripulante, mas aquele trabalho era 'sua cachaça'. Completou dizendo que tinha uma empresa com os filhos, de fornecimento de alimentos para aeronaves. Mas os filhos não faziam nada sem a opinião dela. Então, quando ela voava como aeromoça, se desligava dos problemas da empresa.

Sem que eu perguntasse, foi dizendo que não iria usar óculos enquanto enxergasse 'as letrinhas', ainda que esticando os braços. E que detestava mexer com maquinetas de cartão de crédito. Tinha bons funcionários para isso. Ela apenas gostava de ver seu saldo bancário sempre aumentando! Já fazia anos que era tratada como investidora especial, completou.

Fui conversar com aquela senhora com um tom pedioso, mas retornei um pouco, digamos, humilhado. Será que um dia eu seria um investidor bancário especial, pensei...

No saldo final, fiquei feliz. Que meus enganos sobre as aparências das pessoas sempre sejam assim. Eu acho que uma pessoa é carente, e ela na verdade se mostra mais que suficiente! 

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