Quando pequeno, o índio macuxi Jaider Esbell, percebeu a afinidade que tem com o lápis e papel. Nascido na região da comunidade Santa Cruz, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, município de Normandia, aos 18 anos de idade deixou a maloca a caminho de Boa Vista para dar continuidade aos estudos e também aprimorar o dom artístico e literário.

“Desde a minha infância descobri as habilidades artísticas e me preparei para o momento. Acumulei todas as informações e lembranças e hoje traço tudo nas telas e demais obras literárias”, relatou Esbell.

O pontapé inicial foi em 2010, quando contemplado pela Bolsa Funarte de Criação Literária. Na região Norte, foram inscritos 79 candidatos e o projeto “Terreiro de Makunaima – mitos, lendas e estórias em vivência”, de Jaider Esbell, ficou entre os cinco selecionados, e tempos depois foi publicado em livro. “Eu sempre gostei muito literatura e arte e quando selecionado passou a acreditar na carreira”, frisou, ao complementar que hoje tem dois livros e um e-book publicados.

Aroldo Pinheiro

Os que escapolem!

Quem vive de ganhar a vida com as próprias habilidades manuais sabe bem a sensação de se deixar algo escapulir.

O ato de escapulir é inspiração para muita alegoria, visto que é um ato arrebatador, cheio de adrenalina e semióticas. Visualmente, vejo arte nesse ato e me empenho no salto para, ao menos, bater na trave, derrubar a baliza e sorrir.

O pescador tá lá no meio do lago, o peixe malha, ele levanta a rede e pega com descuido o tucunaré, que escapole. O Vaqueiro na mata cinza mira o golpe no boi, que, mais habilidoso, escapa. A ave de rapina, que geralmente não erra, deixa a presa escapulir e, daí, vem o improvável. O vendedor de absurdos que deixa escapar na última hora a vítima feita, amarga. O político que sem mais noção de suas charlatanices escapole pra fora do jogo e cai decadente.

Quem escapuliu nunca contará a sensação de estar livre, pois, em tese, quem escapa de uma jamais quererá outra. Escapulir ou deixar algo escapulir pode bem ser empregado  com uma palavrinha da moda, desses tempos de marmotas e imposições insuspeitas, a meritocracia – mereceu tem, não mereceu não tem. Usado com afoito entre a classe empresarial, o termo é simplificado para justificar os fins do sistema capitalista.

Na comunidade, quem vive sabe: tem roça, come; não tem, troca por outra coisa. E, se nada tem: solidariedade ou pega-se o alheio. Quando dito, com tanta naturalidade, que tem mais quem mais se empenha, numa linha rasa da interpretação imediatista, o lado mais humano de nossa humanidade pensa, a longo prazo, varrendo ecos das injustiças acumuladas. É um privilégio estender a memória a esse tempo. É um desafio ter tanta cultura para desromantizar os propósitos de cada argumento, quando o que se precisa mesmo é saber reordenar as coisas, visto que as mãos estão lisas, os músculos tesos e há de haver repouso para uma tentativa mais fatal, mais letal.

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Jaider Esbell

Me bata, mas bata nocaute ou...

Pra ir me conhecendo por mim mesmo, se gostar me recomenda, por favor e obrigado!

Bom mesmo é ser estranho, mutante e ouvir de sua mãe que você é doido e mau.

Já fui de um tudo onde deu pra ir nessa vida miserável. Pedreiro, bom neto, lenhador, pescador, professor. Vaqueiro, vagabundo, igrejeiro, atleta, coroinha. Flechador, fazedor de tijolo, de farinha e assustei os outros na noite breu.

Fui vendedor, capinador, ciscador. Já fui vigia, já tive vontade de fugir de casa. Já fui encrenqueiro, vítima, trapaceiro, nunca traí ou fui X9.

Apanhei de palmatória, peguei irmão pra levar surra, levei surra em casa, na rua, fui o rei da figurinha. Repeti de ano na escola, ganhei medalha, trabalhei sem receber.

Já fui andarilho, estudante, eletricista, sonhador, canoeiro. Já fui guia, estive perdido, arranquei pedra na serra, perturbei as filhas alheias, os filhos, fiz o escambau.

Já fui poeta, toquei fogo no campo, fumei, peidei silenciosamente, soltei o jabuti e fui pra roça.

Já corri de bicicleta, a pé, de cavalo, andei em cabos de alta voltagem, pulei de 100 metros n'água.
Já fui a Paris só dizer, oi.

Já fui leitor, contador de estórias, já lacei boi, montei cavalo brabo, fiz saliência, danação, já fui feliz, desci boiando o rio, brinquei de guerra feri uns corações.

Bom mesmo é ser estranho, azedo, feio e fedorento. Sábio, lezo, sonso, mas nunca traí a honra e tenho horror à pobreza de espírito e desonestidade.

Nunca tive castidade, nunca aceitei minha idade, portanto não tenho cidade nem comunidade.

Já corri com medo da vaca, subi em pé de caimbé e de lá vi o horizonte e no auge da sanoloucura Deus me disse: “Não tem jeito, esse é você e não te falo mais nada. Procure um espelho e se multiplique. Vai, infeliz, que você não é nada disso. Você é um artista, e só”.

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Jaider Esbell

Papo Reto - Língua entre os dentes e rabo entre as pernas---

Papo Reto - Língua entre os dentes e rabo entre as pernas---

Olha, a língua e o rabo do dragão! Deixa passar!

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